Suco de Beterraba na gestante com DRC: o que o ORCHARD-BEET nos ensina?
## Introdução
Imagine uma paciente que engravida com TFG de 38 ml/min/1,73 m², proteinúria de 1,5 g e hipertensão crônica. Você já sabe o que vem pela frente...
Quase metade das gestantes com DRC moderada a grave perde mais de 25% da função renal ou precisa de TRS em 12 meses após o parto. E não temos o que oferecer: IECA, BRA e iSGLT2 estão proibidos durante a gestação e a lactação. Desde 1995 não sai um ensaio intervencionista desenhado especificamente para essa população. O ORCHARD-BEET é essa tentativa.
## Metodologia
Ensaio randomizado de viabilidade, 8 centros no Reino Unido, desenho trial within a cohort (Zelen modificado). 108 gestantes com DRC G2 a G5 randomizadas 1:1 antes de 25 semanas para 70 ml diários de suco de beterraba concentrado (400 mg de nitrato) até o parto, ou cuidado padrão.
- O desfecho primário era taxa de recrutamento por centro por mês, não desfecho clínico. Tudo o que vem depois é secundário ou exploratório.
- Só as alocadas para a beterraba foram convidadas a consentir. Das 54, 24 recusaram. A análise final ficou 30 vs 53.
- Não houve placebo nem cegamento.
- O racional é fisiológico: na DRC há deficiência de NO, com síntese prejudicada e ADMA elevada. O nitrato dietético aumenta a biodisponibilidade de NO pela via nitrato-nitrito-NO, independente da NOS.
### Resultados
Recrutamento de 1,01 participante por centro por mês, o que viabiliza um ensaio maior.
- O achado que chama atenção não é função renal, é segurança materna: eventos adversos graves em 23,3% (7/30) com nitrato vs 50,9% (27/53) no cuidado padrão (OR 0,29; IC 95% 0,11 a 0,80; p = 0,017).
- Em análise post hoc, 36,7% vs 66,0% usaram anti-hipertensivo durante a gestação (p = 0,0097). Nas mulheres sem hipertensão crônica prévia a diferença se manteve: 5,9% (1/17) vs 36,4% (8/22), p = 0,025. Ainda assim, a PA máxima registrada não diferiu (PAS 143,0 vs 149,5 mmHg; PAD 91,3 vs 95,0).
- Função renal sem diferença global. No subgrupo com TFG pré-gestacional < 45 ml/min/1,73 m², a creatinina mediana aos 6 meses pós-parto foi 1,9 vs 2,16 mg/dl (p = 0,18). Direção consistente, sem significância.
- Desfechos neonatais na mesma linha: admissão em UTI neonatal 23,3% vs 39,6% (P = 0,13), peso ao nascer 3060 vs 2750 g (P = 0,68).
- Nenhum caso de hipotensão sintomática, e um caso de K > 6,0 mmol/l em cada braço.
- Adesão pode ser um limitante: apenas 5 de 24 concordaram que gostavam de tomar o suco, 20,8% perderam mais de 20 doses e 8,3% interromperam antes do parto. Gosto, náusea, refluxo e urina rosada foram os motivos.
## Limitações importantes
- O desfecho primário era recrutamento, logo temos poder zero para qualquer desfecho clínico. Todos os valores de "p" acima são exploratórios.
- 24 das 54 alocadas à intervenção recusaram, o que impede intenção de tratar verdadeira e quebra o balanceamento da randomização.
- Sem placebo e sem cegamento. Relato de evento adverso é sensível a expectativa, portanto a queda de 50,9% para 23,3% pode conter viés de aferição.
- Hipertensão crônica ao basal era mais frequente no braço padrão (58,5% vs 43,3%), e o desfecho de destaque é justamente uso de anti-hipertensivo; confundimento residual é a explicação mais simples.
- Mulheres de minorias étnicas e de menor nível socioeconômico ficaram sub-representadas exatamente no braço da intervenção.
- Um dos autores tem participação societária na empresa ligada ao produto testado.
### Opinião do NefroAtual
O KDIGO 2024 não traz nenhuma recomendação de intervenção para retardar progressão de DRC na gestação, e é esse vazio que explica o entusiasmo em torno de um estudo de viabilidade.
Vale ser honesto sobre o que o ORCHARD-BEET entregou: mostrou que dá para randomizar gestante com DRC em ensaio multicêntrico. Esse é o resultado. Os sinais de benefício são interessantes, e nada além disso. Na prática, não muda conduta hoje. Prescrever suco de beterraba com base nesse estudo não se sustenta, ainda mais com um terço das pacientes sem conseguir manter o uso.
O que vale guardar é a hipótese: quem mais se moveu foi o subgrupo com TFG < 45, justamente quem tem menor biodisponibilidade de NO. Se um ensaio com poder adequado confirmar isso, teremos a primeira intervenção específica para nefropatia na gestação em três décadas. Por enquanto, é hipótese bem construída.
## Referência:
Smith P, Ashworth D, Hung R, Wang Y, Webb AJ, Dalrymple K, Clark K, Chappell LC, Wiles K, Bramham K; on behalf of the ORCHARD Consortium. Randomized Trial of Dietary Nitrate Supplementation in CKD Pregnancy (ORCHARD-BEET). Kidney Int Rep. 2026;11:106704. [https://doi.org/10.1016/j.ekir.2026.106704](https://doi.org/10.1016/j.ekir.2026.106704)
