
Comunicação: como envolver o paciente na tomada de decisão no tratamento dialítico?

Dez tópicos que todo nefrologista deveria saber sobre cuidados paliativos

10 conceitos e dicas que todo nefrologista deve saber sobre o uso do Lítio!

Falha do transplante renal e o retorno para a diálise

IRA na cirrose, nem sempre é síndrome hepatorrenal!

Doença de Parkinson e declínio da função renal: uma associação que clínicos e nefrologistas precisam conhecer!
Imagine um paciente de 58 anos, em uso de lítio há 18 anos para transtorno bipolar, que chega ao ambulatório com TFG estimada em 45 ml/min/1,73m², poliúria há anos e hipercalcemia leve. O psiquiatra quer manter o lítio. Você precisa decidir o que fazer com o rim.
Esse é um cenário cada vez mais comum e pode gerar muitas dúvidas no seguimento de pacientes com disfunção renal e em uso crônico de lítio. Alguns pontos precisam ser pensados:
- Resistência à vasopressina
- Nefrite intersticial crônica
- Síndrome nefrótica
- Hiperparatireoidismo
## Resistência à AVP (antigo diabetes insipidus nefrogênico)
Pode ocorrer em 20 a 40% dos usuários crônicos. O lítio entra na célula principal do ducto coletor pelo canal epitelial de sódio (ENaC), acumula-se ali e interfere com a capacidade da AVP de inserir aquaporina-2 na membrana luminal. Com o tempo, esse defeito pode ser irreversível — em usuários com mais de 18 anos de uso, a irreversibilidade é quase regra.
O ponto clínico central: não devemos assumir que toda poliúria em usuário de lítio é resistência à AVP. Deficiência de AVP e polidipsia primária (comum em psiquiatria, inclusive por boca seca medicamentosa) precisam ser diferenciadas — o tratamento é completamente diferente. Realizar o teste de restrição hídrica é mandatório.
Quando o lítio não pode ser suspenso, o tratamento de escolha é amilorida, que bloqueia o ENaC e reduz a entrada de lítio na célula. Em estudos, reduziu o volume urinário de 4,7 para 3,1 L/dia em média. Funciona apenas em defeitos leves a moderados — osmolalidade urinária máxima abaixo de 200 mOsm/kg indica dano tubular estabelecido e irreversível, onde a amilorida não parece adicionar benefício.
**Alternativas terapêuticas:**
- Tiazídico (reduz entrega distal de sódio, aumenta reabsorção fracional de água) + dieta hipossódica
- AINEs (reduzem prostaglandinas que degradam AQP2)
- Desmopressina em casos selecionados
**Atenção:** Tiazídico e amilorida aumentam reabsorção proximal de lítio por depleção de volume — monitorar litemia sempre que introduzir diurético.
## Nefrite intersticial crônica e DRC
O risco de progressão existe e é tempo-dependente. Duração de exposição e dose cumulativa são os principais fatores de risco. Em coorte com 1.646 usuários acompanhados por 10 anos, 5% desenvolveram TFG < 60 ml/min. Em série francesa, a perda média foi de 2,3 ml/min/ano de clearance de creatinina — aparentemente modesta, mas ao longo de 20 anos chega a DRCT.
Se a creatinina estiver acima de 2,5 mg/dl, a decisão de suspender lítio não garante estabilização. Em série de nove pacientes com creatinina > 2,5 mg/dl, sete evoluíram para DRCT mesmo após suspensão. Em contrapartida, dos 10 com creatinina < 2,5 mg/dl, apenas um chegou ao estágio terminal. O ponto observado neste estudo é que, no paciente com creatinina < 2,5 mg/dl, a suspensão poderia modificar o desfecho renal.
Histologia típica: fibrose intersticial com microcistos tubulares distais e de ducto coletor — achado bastante específico de nefropatia por lítio. Glomeruloesclerose tende a ser evento tardio.
### Síndrome nefrótica
Rara, mas relevante. Doença de lesões mínimas é a mais frequente — proteinúria inicia em 1,5 a 10 meses após início do lítio e remite em 1 a 4 semanas após suspensão na maioria dos casos. Reintrodução do fármaco levou à recidiva em vários relatos. GESF também foi descrita, com pior resposta à suspensão.
### Hiperparatireoidismo e hipercalcemia
Lítio eleva o limiar do receptor sensor de cálcio na paratireoide, de forma que o PTH continua sendo secretado mesmo com hipercalcemia. 33% dos casos de hiperparatireoidismo por lítio cursam com hiperplasia glandular — o que explica por que a suspensão do fármaco frequentemente não normaliza PTH e cálcio. Paratireoidectomia é a opção mais definitiva. Cinacalcete pode ser alternativa em casos selecionados.
### Limitações atuais
- A maioria dos dados de progressão renal vem de estudos observacionais retrospectivos, logo não é possível estimar causalidade isolada do lítio separada de comorbidades (HAS, DM, uso concomitante de antipsicóticos).
- Não há ensaios randomizados comparando estratégias de manejo renal (suspensão vs. redução de dose vs. manutenção com monitorização), o que impede recomendações formais de alta certeza.
- A decisão de suspender lítio nunca é exclusivamente nefrológica — risco de recidiva de mania e suicídio é real e deve ser avaliado em conjunto com psiquiatria.
## Opinião do NefroAtual
O KDIGO não tem guideline específico para nefropatia por lítio, mas os princípios de manejo de DRC progressiva por causa identificável se aplicam: remover o agente agressor antes que o dano seja irreversível.
Na prática, o ponto crítico é o momento de suspender o medicamento. Creatinina subindo, TFG caindo abaixo de 45, microcistos na ultrassonografia — esse é o paciente que precisa ser avaliado de forma multidisciplinar (psiquiatria/nefrologia/assistente social/psicologia) para traçar um plano de ação, individualizada para o paciente.
Para quem mantém lítio por necessidade psiquiátrica muito precisa: monitorar TFG semestralmente, manter litemia no limite inferior terapêutico, tratar HAS e DM com rigor, e usar amilorida se houver defeito de concentração.
💬 **Agora coloca nos comentários:**
Você já discutiu com o psiquiatra a suspensão do lítio por motivo renal? Como foi essa conversa?
## **Referência:**
Uptodate — Kidney disease from lithium. Disponível em: [uptodate.com](https://www.uptodate.com). Acesso em maio de 2026.