10 Dicas da Transição da Nefrologia Pediátrica para Adultos Segundo o KDIGO

Dez tópicos que todo nefrologista deveria saber sobre cuidados paliativos

Comprometimento cognitivo na DRC: Manejo e Prevenção

Paciente em Diálise Engravidou: Como Conduzir com Segurança?

Lombalgia e hematúria, uma causa incomum

As 6 Recomendações Nível A da nova Diretriz Brasileira de Nefrolitíase que você não pode deixar de saber!

Devemos ou não utilizar dieta hipoproteica em pacientes com Doença Renal Crônica?
## Caso clínico
Você recebe no ambulatório um paciente de 18 anos com DRC secundária a uropatia congênita. Sempre acompanhado pela nefropediatria, chega agora ao seu cuidado.
Ele não sabe o nome das medicações, não entende sua doença, perdeu seguimento recente e a mãe — que sempre organizava tudo — não veio à consulta.
E aí vem a pergunta: **como fazer uma transição estruturada e segura, evitando perda de adesão e piora de desfechos?**
## O que o KDIGO 2024 reforça sobre isso?
Você pode até pensar: "isso é mais organizacional do que clínico…"
Mas o KDIGO é claro: **a transição mal feita é fator de risco para pior evolução da DRC.**
E mais: ela deve ser **planejada, estruturada e centrada no paciente** — não baseada apenas na idade.
## 10 dicas práticas baseadas no KDIGO 2024
### 1. A transição deve ser um processo — não um evento
Você ainda transfere o paciente "de uma vez"? O KDIGO recomenda **planejamento longitudinal**, com início precoce e etapas bem definidas.
### 2. Começar cedo (pré-adolescência)
Quando você começa a preparar esse paciente? Idealmente **entre 12–14 anos**, com educação progressiva.
### 3. Avaliar características individuais
Você usa idade como critério? O KDIGO reforça que é preciso avaliar:
- Maturidade
- Capacidade cognitiva
- Autonomia
### 4. Educação estruturada sobre a doença
Seu paciente sabe explicar sua DRC? Ele deve saber:
- Diagnóstico
- Tratamento
- Riscos da não adesão
### 5. Treinar autocuidado
Ele sabe se virar sozinho? O KDIGO enfatiza:
- Gerenciamento de medicações
- Reconhecimento de sinais de alerta
- Navegação no sistema de saúde
### 6. Envolver progressivamente o paciente (e reduzir dependência dos pais)
Você ainda fala só com os pais? O foco deve migrar **gradualmente para o paciente**.
### 7. Comunicação formal entre equipes
Você recebe pacientes "sem história"? O guideline recomenda:
- Sumário clínico completo
- Comunicação direta entre equipes
### 8. Realizar consultas de transição (modelo compartilhado)
Você já fez consulta conjunta? O KDIGO sugere:
- Sobreposição entre equipes
- Redução de ruptura no cuidado
### 9. Identificar fatores de risco para falha na transição
Quem merece mais atenção? Pacientes com:
- Baixa adesão
- Doença complexa
- Vulnerabilidade social
### 10. Monitorar após a transição
Você acompanha de perto depois que ele "vira adulto"? O KDIGO recomenda **vigilância ativa** para:
- Perda de seguimento
- Queda de TFGe
- Não adesão
## Insight importante do KDIGO
A transição é um dos momentos de maior risco para:
- Perda de enxerto
- Progressão da DRC
- Internações evitáveis
E isso não é por causa da doença — **é por falha do sistema**.
## Transição do cuidado da nefropediatria para o cuidado do adulto em pacientes com DRC
A **Figura 1** ilustra o processo contínuo de transição do cuidado em pacientes com doença renal crônica ao longo da adolescência e início da vida adulta, conforme recomendado pelo KDIGO 2024.

**Fase inicial (11–17 anos)**, em azul, corresponde ao cuidado pediátrico, com foco na preparação precoce, incluindo desenvolvimento de autonomia, uso de checklists de prontidão e início da educação do paciente sobre sua doença.
**Fase intermediária (17–25 anos)**, em verde, representa o período de transição propriamente dito, idealmente com cuidado compartilhado entre equipes pediátrica e de adultos. Esse período é reconhecido como de maior risco para desfechos adversos, sendo recomendado acompanhamento mais frequente, inclusão de cuidadores quando apropriado e adaptação progressiva ao modelo de cuidado do adulto.
**Fase final (≥25 anos)**, em bege, corresponde ao cuidado adulto regular, após consolidação da autonomia e integração completa ao sistema de saúde do adulto.
A linha do tempo inferior reforça que a transição deve ser **gradual, individualizada e baseada na prontidão do paciente** — e não apenas na idade cronológica.
## Na prática: o que muda na sua consulta?
Você deve se perguntar:
- Esse paciente entende a doença dele?
- Ele sabe o que acontece se parar as medicações?
- Ele consegue se organizar sozinho?
Se a resposta for "não", **você ainda está em fase de transição** — mesmo que ele tenha 25 anos.
## Opiniãodo NefroAtual
A transição bem feita não depende de tecnologia nem de grandes recursos. Depende de **método, repetição e intenção**.
Se você não estrutura esse processo, alguém vai pagar o preço — e geralmente é o rim do paciente.
**E você?** Já estruturou de forma ativa a transição dos seus pacientes com DRC ou ainda deixa isso acontecer de forma "natural" no seu ambulatório?
## **Referência:**
KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. *Kidney International*, 2024.