Albuminúria ou proteinúria: estamos medindo o marcador certo nas glomerulopatias?

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## 🧑⚕️ Caso clínico
Você acompanha um paciente de 42 anos com nefropatia por IgA. A TFGe está em 58 ml/min/1,73 m². Ele usa IECA em dose máxima tolerada, tem pressão bem controlada e está em seguimento regular.
No laboratório, vem o resultado:
- Relação proteína/creatinina: 0,65 g/g
- Relação albumina/creatinina: 0,48 g/g
Na evolução, você percebe que a proteinúria total parece “não tão alta”, mas a albuminúria persiste elevada. A pergunta prática aparece: nas glomerulopatias, devemos continuar seguindo proteinúria total ou a albuminúria deveria ganhar mais espaço na decisão clínica? É exatamente essa discussão que este editorial traz.
## ❓ Diferença entre proteinúria e albuminúria
**Proteinúria** é o total de proteínas na urina. Ela inclui:
- Albumina
- Imunoglobulinas
- Cadeias leves
- β2-microglobulina
- Proteínas tubulares
- Outras proteínas de diferentes pesos moleculares
**Albuminúria** mede especificamente a albumina urinária. Isso importa porque a albumina é uma proteína muito ligada à lesão da barreira glomerular. Quando há dano ao podócito, à membrana basal glomerular ou ao endotélio, a albumina começa a aparecer na urina.
**Conclusão:** a albuminúria tem relação mais direta com a lesão glomerular, enquanto a proteinúria é mais ampla, porém mais “misturada”.
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## 🧠 Por que isso virou discussão agora?
Na DRC em geral, o KDIGO já colocou a albuminúria no centro da classificação de risco. Hoje classificamos DRC por TFGe e categoria de albuminúria. Isso aconteceu porque a albuminúria é mais padronizada, mais específica e melhor validada como marcador prognóstico.
Mas nas doenças glomerulares (nefropatia por IgA, nefrite lúpica, GESF, membranosa e vasculites), seguimos falando muito mais em:
- Proteinúria de 24 horas
- Relação proteína/creatinina
- Proteinúria nefrótica
- Redução de proteinúria
A pergunta do artigo é provocativa: se a albuminúria é tão importante na DRC, por que ainda usamos tão pouco a relação albumina/creatinina nas glomerulopatias?
## 📊 O que os dados sugerem?
O editorial destaca que duas grandes meta-análises recentes fortaleceram a albuminúria como marcador substituto de desfecho renal:
1. Uma delas mostrou que uma redução de 30% na relação albumina/creatinina se associou a menor risco de falência renal ou duplicação da creatinina.
2. Outra análise comparou relação albumina/creatinina e relação proteína/creatinina e sugeriu que a associação com falência renal foi mais forte com a relação albumina/creatinina, especialmente em pacientes com doenças glomerulares.
**Na prática:** a albuminúria parece prever progressão renal muito bem — talvez até melhor que a proteinúria total em alguns cenários. Contudo, a maior parte dos dados ainda vem de populações gerais de DRC, não de ensaios específicos em cada glomerulopatia.
## 🧬 E na nefropatia por IgA?
A nefropatia por IgA é onde a discussão está mais avançada. Estudos recentes na Suécia, Alemanha e China mostraram que, quanto maior a relação albumina/creatinina, maior o risco de perda de função renal:
- Pacientes com relação albumina/creatinina entre 0,3 e 0,5 g/g já tinham risco maior de queda da TFGe ou falência renal quando comparados a pacientes abaixo de 0,3 g/g.
- Pacientes com relação albumina/creatinina acima de 1,5 g/g tinham risco várias vezes maior de desfecho renal adverso.
Isso é prático, pois às vezes olhamos uma proteinúria “subnefrótica” e ficamos tranquilos, mas a albuminúria pode mostrar que aquele paciente ainda carrega risco residual significativo.
## 🔥 Albuminúria: marcador ou causa de dano?
Provavelmente os dois. A albumina filtrada não é apenas um sinal passivo de lesão glomerular; ela também pode gerar toxicidade tubular. O artigo lembra que a albumina pode induzir:
- Inflamação
- Estresse oxidativo
- Dano lisossomal
- Estresse de retículo endoplasmático
- Fibrose
Quando reduzimos a albuminúria, talvez não estejamos apenas melhorando um número, mas reduzindo um mecanismo de progressão.
## 🩺 Devo abandonar a relação proteína/creatinina?
Não. A proteinúria total ainda é útil, especialmente em doenças em que proteínas não albumina carregam informação clínica, como:
- Proteinúria tubular
- Cadeias leves
- Doenças com imunoglobulinas urinárias
- Algumas formas avançadas de DRC
- Membranosa com proteinúria não seletiva
Na prática, não estamos diante de uma escolha excludente. A pergunta útil é: quando a relação albumina/creatinina acrescenta informação à relação proteína/creatinina?
## 🧪 Onde a relação albumina/creatinina é mais útil?
Eu pensaria em relação albumina/creatinina especialmente em:
- Nefropatia por IgA
- DRC glomerular estável
- Seguimento de risco residual
- Pacientes com proteinúria baixa ou moderada
- Avaliação de resposta a terapias nefroprotetoras
- Estratificação de risco de progressão
Esse raciocínio é importante agora que temos terapias nefroprotetoras atuando em mecanismos comuns de progressão (bloqueio do SRAA, iSGLT2, antagonistas mineralocorticoides, antagonistas de endotelina).
## 🧫 E na nefrite lúpica e vasculites?
**Nefrite lúpica:** As diretrizes continuam centradas em proteinúria, mas a albuminúria pode ser relevante. Alguns pacientes com pouca proteinúria total apresentam albuminúria, o que pode se associar a formas mais ativas. O desafio é diferenciar se a proteinúria vem de atividade ou de dano crônico.
**Vasculites ANCA:** Pacientes com relação albumina/creatinina acima de 300 mg/g seis meses após indução tiveram pior recuperação da função renal. A albuminúria persistente pode ser um marcador de dano glomerular residual, inflamação persistente ou evolução para fibrose.
## 📌 Como usar na prática?
1. **Em DRC geral:** Use relação albumina/creatinina como padrão de risco.
2. **Em glomerulopatias:** Não abandone a relação proteína/creatinina ainda, pois diretrizes e metas terapêuticas ainda se baseiam nela.
3. **Peça com frequência:** Comece a solicitar relação albumina/creatinina, especialmente em nefropatia por IgA e casos de dúvida sobre risco residual.
4. **Interprete em conjunto:** Se a relação proteína/creatinina é muito maior que a de albumina, pense em proteína não albumina. Se a de albumina é elevada mesmo com proteína moderada, não subestime o risco.
5. **Use a trajetória:** A tendência ao longo do tempo é mais valiosa que um valor isolado.
### 🧠 Opinião NefroAtual
A discussão entre albuminúria e proteinúria não é apenas uma briga de laboratório. Ela muda como estimamos risco, como acompanhamos resposta e como entendemos a progressão nas doenças glomerulares. O artigo nos lembra que a albuminúria já é central na DRC, mas ainda é subutilizada nas glomerulopatias. Talvez o futuro não seja abandonar a proteinúria, mas reconhecer que a relação albumina/creatinina pode ser um marcador mais limpo da lesão glomerular e um melhor instrumento para estratificar risco.
O recado final é simples: nas glomerulopatias, a relação proteína/creatinina ainda fala muito, mas a relação albumina/creatinina talvez esteja dizendo algo que a gente ainda escuta pouco.
## **Referência:**
[Ivković V et al. Albuminuria or proteinuria in glomerular disease and CKD—which one to use? Nephrology Dialysis Transplantation, 2026.](https://academic.oup.com/ndt/advance-article/doi/10.1093/ndt/gfae000/0000000)