Biópsia renal na gestação: indicações, segurança e impacto terapêutico

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## Introdução
Imagine uma paciente que evoluiu com síndrome nefrótica de início agudo no primeiro trimestre, sem diagnóstico bem estabelecido... a investigação pode ficar travada e o tratamento adequado pode não ser realizado.
A biópsia renal durante a gestação segue sendo uma decisão difícil, em parte pela escassez de dados mais confiáveis: o maior coorte publicado até hoje datava de 1987. Essa coorte francesa multicêntrica de 2025 preenche esse vazio com 76 casos reais, dados de segurança e impacto terapêutico concreto.
## Metodologia
Levantamento retrospectivo nacional francês, 18 centros, cobrindo biópsias realizadas entre 2006 e 2025. Amostra: 76 gestantes, idade mediana 29,5 anos, biópsia realizada em mediana com 13,5 semanas (variando de 4 a 26 semanas).
A pergunta prática que o estudo responde: biópsia renal no primeiro e segundo trimestre, qual o risco real e o que ela muda na conduta?
## Resultados
**Indicações mais frequentes:**
- Síndrome nefrótica sem IRA: 40,8%
- Proteinúria não nefrótica sem IRA: 40,8%
- IRA associada a proteinúria ou síndrome nefrótica: 18,4%
**Diagnósticos histológicos:**
- Nefrite lúpica: 43%
- GESF: 13%
- Nefropatia membranosa: 13%
- Nefropatia por IgA: 12%
- Síndrome nefrótica idiopática compatível com doença de lesão mínima: 5%
A biópsia foi diagnóstica em 94,7% dos casos. A biópsia mudou a conduta em 63,2% das pacientes.
**Tratamentos iniciados durante a gestação:**
- Corticosteroides: 35,5%
- Hidroxicloroquina: 27,6%
- Azatioprina: 18,4%
- Inibidor de calcineurina: 13,2%
Isso tem implicação direta: em pelo menos uma paciente com LES e síndrome nefrótica, a biópsia revelou GESF — e permitiu usar corticoide isolado, evitando imunossupressão mais intensa presumida para nefrite lúpica.
**Segurança do procedimento:**
- 1 evento adverso sério em 76 procedimentos (1,3%): hematúria com necessidade de transfusão, sem embolização.
- Taxa comparável à da população não gestante (1,5–5%).
- Hematúria macroscópica não grave em 3,9%; hematoma perinéfrico sintomático em 5,3%.
- 1 caso de contrações uterinas transitórias após biópsia às 26 semanas.
Os desfechos obstétricos foram adversos — parto prematuro em 65%, baixo peso em 56,7%, pré-eclâmpsia em 16,4%, morte fetal intraútero em 9% — refletindo a gravidade da doença renal subjacente, não o procedimento em si.
## Algumas limitações importantes
- Ocorreu recrutamento voluntário, logo temos um viés de seleção para aqueles casos com maior suspeita de diagnósticos tratáveis ou em que as complicações têm mais chance de ter sido reportados.
- Sem grupo controle (biópsia intragestacional vs. pós-parto) — impede comparar segurança e efetividade relativa.
- Alta proporção de nefrite lúpica (43%) reflete dois centros especializados em lúpus na amostra, não a distribuição real da prática.
- Sem dados de desfecho renal após a gestação — sem informação sobre remissão, progressão ou necessidade de TRS.
- Casos com indicação de biópsia que não foram biopsiados (tratamento empírico, recusa) não foram capturados.
## Opinião NefroAtual
O KDIGO 2025 identificou exatamente essa dúvida, a falta de dados sobre biópsia renal em pacientes gestantes. Esse estudo a preenche parcialmente. O aprendizado é de que a biópsia renal no primeiro e início do segundo trimestre tem risco aceitável e muda a conduta na maioria dos casos. Não é para fazer de rotina, mas também não é para evitar por medo quando há indicação real.
A discussão mais relevante para o dia a dia é a seleção do caso. Síndrome nefrótica de início agudo sem diagnóstico estabelecido, antes de 20 semanas — a biópsia tem retorno terapêutico concreto. Anti-PLA2R positivo com quadro clinicamente compatível? Provavelmente a sorologia já basta.
E um ponto explícito no estudo: biópsia não serve para diferenciar pré-eclâmpsia de doença glomerular — o ratio sFlt-1/PlGF já ocupa esse papel.
A janela ideal é antes de 20 semanas. Após isso, o risco sobe e a indicação precisa ser ainda mais criteriosa.
**💬 Agora coloca nos comentários:**
Você já indicou ou realizou biópsia renal em uma gestante na sua prática?
## **Referência:**
Imbert C, Guettrot-Imbert G, Bruno J, et al. Kidney biopsy during pregnancy: indications, complications, results and therapeutic impact. Nephrology Dialysis Transplantation. 2026. doi:10.1093/ndt/gfag108