## Introdução
Imagine um paciente com síndrome nefrótica de início recente, cardiopata com stent coronariano há 4 meses, em uso de AAS 100 mg/dia... a biópsia renal está indicada, mas a conduta habitual diz para suspender o antiagregante por 7 a 10 dias antes do procedimento. Suspender expõe ao risco de trombose do stent. Não suspender, ou simplesmente não biopsiar, expõe ao risco de diagnóstico tardio e tratamento inadequado. Até hoje, essa decisão era tomada com base em dados retrospectivos, heterogêneos e incompletos. Esse estudo muda isso. [Acesse o estudo aqui](https://academic.oup.com/ndt/advance-article/doi/10.1093/ndt/gfag139/8707698?login=true&guestAccessKey=)
## Metodologia
Estudo observacional prospectivo unicêntrico, conduzido entre 2020 e 2025, com 1.103 biópsias consecutivas — nativas e de transplante — realizadas no centro universitário de Mainz (Alemanha). Todos os procedimentos foram guiados por ultrassom com agulha 16 gauge. Em 143 casos (13%), o antiagregante foi mantido — por necessidade clínica absoluta ou urgência diagnóstica, a critério do nefrologista assistente. O desfecho primário foi complicação grave, definida como qualquer procedimento não planejado ou prolongamento da internação.
A pergunta que o estudo responde: manter o antiagregante plaquetário aumenta o risco de complicações graves na biópsia renal?
## Resultados
Complicações graves ocorreram em 4,3% de todas as biópsias — 5,0% nas nativas e 2,1% nas de transplante.
**Comparação entre antiagregação vs. sem antiagregação:**
- Complicações graves: 6,3% vs. 4,0% (p = 0,2, não significativo)
- Necessidade de transfusão: 4,2% vs. 1,5% (p = 0,035)
- Sangramento maior (critério ISTH): 4,9% vs. 3,6% (p = 0,4)
Na regressão multivariável, o antiagregante não foi preditor independente de complicação grave (log OR -0,23; IC 95% -1,7 a 0,87; p = 0,7). O mesmo resultado se manteve na análise restrita às biópsias nativas.
O que isso significa na prática: a associação com maior necessidade de transfusão persiste na análise univariável, mas desaparece quando ajustada para outros preditores, como hemoglobina pré-biopsia baixa, hematúria pré-procedimento e posição sentada — todos marcadores de maior complexidade clínica e não do antiagregante em si.
**Preditores reais de complicação grave:**
- Biópsia nativa (vs. transplante)
- Sexo feminino
- Posição lateral direita
Uremia, experiência do operador e diagnóstico inflamatório não se associaram a maior risco.
## Limitações importantes
- Estudo unicêntrico com médicos experientes — quase 40% das biópsias realizadas por profissional com mais de 100 procedimentos —, logo a aplicabilidade em serviços com menor volume pode ser menor.
- Os pacientes mantidos em antiagregação eram mais velhos, com mais diabetes, creatinina e ureia mais elevadas, portanto temos confundimento por indicação que, embora provavelmente superestime o risco hemorrágico do antiagregante, não pode ser completamente ajustado.
- Seguimento limitado ao período de internação — a maioria das complicações ocorre nas primeiras 24 horas, mas eventos tardios não foram captados.
- A indicação para uso do antiagregante não foi registrada, o que impede análise estratificada por risco trombótico individual.
- Apenas aspirin 100 mg/dia na quase totalidade dos casos (5 com clopidogrel), portanto os dados não são diretamente extrapoláveis para dupla antiagregação.
## Opinião NefroAtual
O KDIGO 2024 reconhece explicitamente a escassez de dados sobre fatores de risco para complicações da biópsia renal percutânea. Esse estudo prospectivo preenche parte dessa lacuna, e o resultado principal é clinicamente relevante: antiagregação plaquetária em monoterapia, na dose usual de AAS 100 mg, não pareceu ser preditor independente de complicação grave.
Na prática, isso significa que a decisão de suspender o antiagregante antes da biópsia não pode ser automática. Para o paciente com stent coronariano recente, doença aterosclerótica multiarterial ou alto risco trombótico, os 7 a 10 dias de washout habitual podem custar mais do que o sangramento que tentam prevenir. O que o estudo deixa claro é que o risco real da biópsia nesse cenário é baixo e manejável — e que o maior risco pode estar justamente em adiar o diagnóstico ou suspender proteção antiplaquetária de forma indiscriminada.
Individualizar é a conduta. Mas agora temos número para fundamentar essa decisão.
💬 **Agora coloca nos comentários:**
Você já realizou biópsia renal em paciente em uso de antiagregante? Suspendeu, manteve — ou adiou o procedimento?
## **Referência:**
Kraus D, Sadek R, Kommer A, Claßen P, Stortz M, Holtz S, Weber S, Weinmann-Menke J. Bleeding risk after kidney biopsy with platelet inhibition. Nephrology Dialysis Transplantation 2026. doi: 10.1093/ndt/gfag139