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## Começando pelo consultório...
Imagine uma paciente de 64 anos, hipertensa, com DRC G3bA2, TFGe de 38 mL/min/1,73 m², pressão bem controlada e que toma duas a três xícaras de café todos os dias.
Durante a consulta ela pergunta:
— “Doutor, agora que meu rim está fraco, preciso parar de tomar café?”
A pergunta parece simples. Mas será que o café piora a função renal? A cafeína aumenta a pressão? Pode aumentar a albuminúria? E naquele paciente com DRC mais avançada, a cafeína fica mais tempo circulando?
Uma revisão publicada em 2026 no *Nephrology Dialysis Transplantation* tenta organizar exatamente essas respostas. E a conclusão talvez seja mais permissiva do que muitos pacientes — e alguns nefrologistas — imaginam.
## Primeiro: café e cafeína não são exatamente a mesma coisa
Essa distinção é importante. O café contém cafeína, mas também uma série de outros compostos biologicamente ativos, principalmente ácidos clorogênicos, polifenóis, melanoidinas e diterpenos.
Portanto, quando estudos observacionais encontram benefício associado ao consumo de café, não podemos automaticamente atribuí-lo à cafeína. Isso fica ainda mais interessante quando lembramos que parte desses componentes permanece presente no café descafeinado.
Em outras palavras: o efeito do café pode ser maior do que simplesmente o efeito da cafeína.
## Mas a cafeína não aumenta a filtração glomerular?
Aumenta, pelo menos agudamente. A cafeína antagoniza receptores de adenosina, principalmente A1 e A2A. No rim, isso pode reduzir a vasoconstrição da arteríola aferente mediada pela adenosina e interferir no feedback tubuloglomerular.
O resultado pode incluir:
- aumento transitório da filtração glomerular;
- natriurese;
- diurese;
- aumento da perfusão renal;
- menor reabsorção tubular de sódio.
Além disso, há dados experimentais sugerindo efeitos antioxidantes, preservação mitocondrial e redução da transição epitélio-mesenquimal tubular.
Mas aqui vem uma pergunta importante: se aumenta a filtração, isso seria necessariamente bom? Não sabemos. Uma coisa é uma pequena alteração hemodinâmica transitória. Outra seria uma hiperfiltração sustentada ao longo de anos. Esse é um dos motivos pelos quais devemos ter cuidado para não transformar associações epidemiológicas em mecanismos causais.
## Quem toma café desenvolve menos DRC?
Curiosamente, a maioria dos grandes estudos observacionais aponta nessa direção:
- Em uma coorte holandesa com mais de 78 mil participantes, cada xícara adicional de café por dia esteve associada a aproximadamente 3% menor risco de um desfecho composto envolvendo DRC incidente ou declínio rápido da função renal.
- No estudo ARIC, envolvendo mais de 14 mil adultos acompanhados por cerca de 24 anos, indivíduos que consumiam café apresentaram aproximadamente 11% menor risco de desenvolver DRC comparados aos que não consumiam café.
- Em uma grande coorte de Singapura, o risco de doença renal terminal foi aproximadamente 15% menor com uma xícara por dia e 30% menor com duas ou mais xícaras por dia, em comparação com consumo inferior a uma xícara diária.
Meta-análises de estudos de coorte também encontraram associação entre consumo de café e menor risco de DRC incidente, doença renal terminal e albuminúria.
## Então podemos orientar o paciente a tomar mais café para proteger o rim?
Não. Esse é provavelmente o ponto mais importante de toda a revisão. Quase todos esses resultados vêm de estudos observacionais. Quem toma café regularmente pode diferir de quem não toma café em alimentação, atividade física, nível socioeconômico, tabagismo, presença de doenças e inúmeras outras características.
Existe ainda a possibilidade de causalidade reversa: pacientes mais doentes, com DRC avançada, palpitações ou distúrbios do sono podem reduzir voluntariamente o consumo de café. Portanto, há uma associação entre café e menor risco renal, mas ainda não podemos afirmar que o café seja nefroprotetor.
## E a albuminúria?
Aqui a história fica um pouco mais interessante. Dados do NHANES sugerem associação inversa entre consumo de cafeína e albuminúria, particularmente em pessoas com DRC, indivíduos mais jovens e mulheres.
Mas existe um fator que provavelmente explica parte da heterogeneidade entre os estudos: nem todo mundo metaboliza cafeína da mesma maneira. A principal enzima envolvida no metabolismo da cafeína é a CYP1A2. Variantes genéticas dessa enzima determinam indivíduos que metabolizam cafeína mais rapidamente ou mais lentamente.
Um estudo chamou bastante atenção: entre os chamados metabolizadores lentos, consumo superior a três xícaras de café por dia esteve associado a maior risco de albuminúria e hiperfiltração. Essa associação não foi observada nos metabolizadores rápidos. Ainda estamos longe de solicitar genótipo CYP1A2 no consultório antes de liberar o espresso, mas isso reforça uma mensagem importante: a resposta ao café provavelmente não é igual para todos.
## E na DRC? A cafeína fica mais tempo no organismo?
Provavelmente sim. A cafeína é metabolizada predominantemente no fígado, especialmente pelo CYP1A2. Embora apenas uma pequena quantidade de cafeína seja eliminada inalterada na urina, pacientes com DRC podem apresentar redução da atividade das enzimas hepáticas do citocromo P450. Isso pode aumentar a exposição sistêmica e prolongar a meia-vida da cafeína.
Portanto, aquele paciente com DRC avançada que diz: “Se eu tomar café depois das quatro da tarde, não durmo a noite inteira”, pode ter uma razão fisiológica para isso.
## Café piora a pressão arterial?
Agudamente, pode aumentar. Uma dose de aproximadamente 200–250 mg de cafeína pode elevar transitoriamente a pressão sistólica em aproximadamente 3–14 mmHg e a diastólica em 4–13 mmHg. O efeito geralmente dura algumas horas e é mais pronunciado em pessoas que não consomem cafeína habitualmente. Com o consumo crônico ocorre algum grau de tolerância.
Estudos prospectivos não demonstram aumento consistente do risco de hipertensão entre consumidores habituais de café. Na prática, um paciente com pressão controlada e hábito estável de consumir café provavelmente não precisa suspender a bebida apenas por ter hipertensão ou DRC. Outra história é o paciente com hipertensão não controlada que toma seis cafés fortes por dia.
## Quanto de cafeína estamos falando?
O conteúdo varia muito conforme o preparo:
- Espresso de 30 mL: cerca de 63 mg;
- Café instantâneo de 236 mL: cerca de 63 mg;
- Latte: aproximadamente 97 mg;
- Cappuccino: cerca de 113 mg;
- Americano: aproximadamente 122 mg;
- Café descafeinado: cerca de 2 mg.
Por isso, simplesmente perguntar “quantas xícaras você toma?” pode não ser suficiente. Uma caneca grande de café preparado pode conter muito mais cafeína do que um pequeno espresso. Para adultos, a revisão considera menos de 400 mg de cafeína por dia uma quantidade geralmente segura. Mas isso não significa que 400 mg seja uma meta. É um teto aproximado para a população geral.
## E o sono? Talvez esse seja o problema mais relevante na prática
Distúrbios do sono são extremamente comuns na DRC. A cafeína pode reduzir o tempo total de sono, aumentar a latência para iniciar o sono, aumentar despertares e reduzir o sono profundo. Uma meta-análise citada pelos autores estimou que uma xícara contendo cerca de 107 mg de cafeína deveria ser consumida pelo menos 8,8 horas antes de dormir para evitar redução significativa do tempo total de sono.
Isso muda bastante nossa orientação prática. Para um paciente que dorme às 22h, talvez o último café devesse ocorrer por volta das 13h. E lembre-se: na DRC, o metabolismo da cafeína pode estar prolongado.
## E o descafeinado?
Pode ser uma excelente alternativa, especialmente para pacientes com insônia, ansiedade, palpitações, sensibilidade importante à cafeína ou hipertensão difícil de controlar. O descafeinado preserva parte dos compostos bioativos do café e contém quantidade mínima de cafeína.
## Então precisamos proibir café na DRC?
Provavelmente não. Essa talvez seja a mensagem clínica mais importante do artigo. Para a maioria dos pacientes com DRC, o consumo moderado de café parece ser seguro e não existe evidência que justifique restrição rotineira simplesmente porque o paciente tem DRC.
Quem merece mais cautela? Eu prestaria atenção principalmente no paciente com:
- consumo muito elevado de cafeína;
- insônia;
- ansiedade;
- palpitações;
- pressão arterial mal controlada;
- sensibilidade evidente à cafeína;
- DRC G4–G5;
- tratamento dialítico.
## Mensagem final do NefroAtual
Café não deve ser automaticamente colocado na lista de proibições do paciente com DRC. O conjunto atual de evidências sugere que o consumo moderado é provavelmente seguro e pode estar associado a menor risco de desenvolvimento e progressão da DRC. Mas a palavra-chave continua sendo associação. Ainda faltam ensaios clínicos e estudos prospectivos mais robustos, principalmente em pacientes com DRC G4–G5 e em diálise. Na prática, talvez a melhor orientação seja menos baseada em “pode ou não pode” e mais em quanto, quando e em quem.
## Referência
Bigotte Vieira M, Nicolau C, Curto A, et al. Coffee consumption and chronic kidney disease. Nephrology Dialysis Transplantation. 2026.