Sono ruim na DRC: quando “higiene do sono” ajuda, mas não resolve tudo…

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## Caso clínico
Uma paciente de 64 anos, DRC G5D em hemodiálise segunda, quarta e sexta, chega para revisão mensal dizendo:
**“Doutor, eu estou acabada. Durmo mal, acordo cansada e nos dias de diálise parece que meu corpo não volta ao normal...”**
Você olha os exames: Hb razoável, fósforo controlado, K ok, sem grande ganho interdialítico. Ela nega dispneia, mas relata cochilos longos depois da diálise. À noite, deita cedo, mas fica “com a cabeça ligada”: pensa no acesso, na próxima sessão, no transplante, na dieta, nos exames.
A pergunta prática aparece: será que orientar higiene do sono para pacientes com DRC é algo realmente útil ou é só aquele conselho genérico de “evite café e desligue o celular”? É isso que este artigo tentou responder.
## Afinal, o que o estudo avaliou?
Este foi um estudo transversal com 231 pessoas com DRC, recrutadas em 4 unidades de nefrologia na Austrália. A maioria estava em hemodiálise. Os autores avaliaram três coisas:
1. **Higiene do sono**: usaram o Sleep Hygiene Index, em que pontuações mais altas indicam pior higiene do sono.
2. **Qualidade do sono**: usaram o Pittsburgh Sleep Quality Index, em que pontuações mais altas indicam pior qualidade do sono.
3. **Fadiga**: usaram o FACIT-F, em que pontuações mais baixas indicam maior fadiga.
Na prática, o estudo queria saber: o paciente renal que tem pior higiene do sono também dorme pior e se sente mais fatigado? A resposta foi: sim, mas com uma nuance importante.
## O paradoxo do artigo: a higiene do sono era “boa”, mas o sono era ruim
Esse é o ponto mais interessante. De forma geral, os pacientes tinham uma pontuação compatível com boa higiene do sono. Mesmo assim:
- 73% tinham má qualidade do sono.
- 99% apresentavam fadiga.
- 40% tinham fadiga importante.
Ou seja: na DRC, o problema do sono não se explica apenas por comportamento inadequado. Não é só “não tome café à noite”, “desligue a televisão” ou “tenha rotina”. Na DRC, o sono pode ser afetado por uremia, prurido, síndrome das pernas inquietas, apneia do sono, ansiedade, depressão, medicações, dor, noctúria, horário da diálise e pelo próprio impacto emocional de viver com uma doença crônica.
**Mensagem prática:** a higiene do sono importa, mas não deve ser vendida como tratamento único!
## Quais hábitos ruins apareceram com mais frequência?
Na figura 1 do artigo (abaixo), os autores mostram os comportamentos mais relatados de pior higiene do sono. Os principais foram:
1. **Horário irregular para acordar**: muitos pacientes não acordavam em horários consistentes.
2. **Ficar pensando, planejando ou se preocupando na cama**: esse achado é muito clínico. O paciente deita, mas o cérebro continua em modo “ambulatório”: exames, diálise, transplante, acesso, dieta, futuro.
3. **Cochilos diurnos prolongados**: especialmente cochilos de 2 horas ou mais.
4. **Horário irregular para dormir**: a rotina sono-vigília parece bastante instável em parte dos pacientes.

E aqui vale uma provocação: quantas vezes perguntamos sobre potássio, fósforo e ultrafiltração, mas não perguntamos se o paciente cochila 2 horas depois da diálise e depois passa a noite acordado?
## A hemodiálise pode bagunçar o relógio biológico?
Provavelmente, sim. O artigo discute que pacientes em hemodiálise podem ter uma espécie de “cronodisrupção” relacionada ao tratamento. Em outras palavras: o ritmo imposto pela diálise pode interferir no ritmo natural de sono e vigília.
- Pense no paciente que faz diálise muito cedo: ele precisa acordar antes do habitual, dorme mal na noite anterior, cochila após a sessão e depois não consegue dormir bem à noite.
- Pense no paciente do turno da tarde: ele chega em casa cansado, come tarde, cochila em horário ruim e vai dormir sem rotina.
O estudo não prova causalidade, mas reforça uma ideia prática: o horário da diálise e os hábitos nos dias de diálise podem ser parte do problema do sono.
## Higiene do sono se associou a pior sono?
Sim. Pacientes com pior higiene do sono tiveram pior qualidade de sono. A associação permaneceu mesmo após ajustes. Isso é importante porque mostra que, mesmo em uma população complexa como a DRC, hábitos de sono continuam relevantes. Mas o artigo também mostra que a relação não é simples. A mensagem é: oriente higiene do sono, mas investigue ativamente outras causas de sono ruim na DRC.
## Higiene do sono se associou a fadiga?
Também sim. Pior higiene do sono se associou a maior fadiga. Mas aqui existe um ponto importante: essa relação pode ser bidirecional. O paciente pode estar mais fatigado porque dorme mal, ou pode dormir mal porque está fatigado, cochila mais durante o dia, desorganiza a rotina e piora o sono à noite. É aquele ciclo clássico: sono ruim → fadiga → cochilo prolongado → noite ruim → mais fadiga.
## O que isso muda na prática do nefrologista?
### 1. Fadiga na DRC não é só anemia
Quando o paciente renal diz “estou cansado”, a gente tende a pensar logo em Hb baixa, uremia, hipervolemia, inflamação, descondicionamento ou hipotensão intradialítica. Tudo isso importa, mas o artigo lembra que sono ruim pode ser um componente central da fadiga. Vale incluir perguntas simples:
- “Você acorda descansado?”
- “Você cochila durante o dia?”
- “Quanto tempo dura esse cochilo?”
- “Você dorme diferente nos dias de diálise?”
- “Você ronca?”
- “Tem coceira à noite?”
- “Sente pernas inquietas?”
- “Fica preocupado quando deita?”
### 2. Higiene do sono precisa ser adaptada para DRC
A orientação genérica ajuda, mas é insuficiente. Para o paciente com DRC, a conversa precisa ser específica:
- **Cochilos**: evitar cochilos muito longos, principalmente no fim da tarde.
- **Rotina**: tentar manter horário semelhante para dormir e acordar, inclusive em dias sem diálise.
- **Diálise**: entender se o turno da diálise está prejudicando o sono.
- **Sintomas**: tratar prurido, câimbras, dor, pernas inquietas e dispneia noturna.
- **Apneia**: rastrear ronco, pausas respiratórias e sonolência diurna.
- **Saúde mental**: abordar ansiedade e ruminação noturna.
- **Medicações**: revisar remédios que possam atrapalhar sono ou causar sonolência diurna.
### 3. O paciente quase nunca recebeu orientação formal sobre sono
Apenas 17% dos participantes conheciam recomendações de higiene do sono. Talvez a unidade de diálise seja um local excelente para isso, com folhetos, orientação durante a sessão, triagem de sono ruim, checklist de fadiga e encaminhamento para avaliação de apneia quando indicado.
## Como eu explicaria para o paciente?
“Seu sono não depende apenas de deitar cedo. Na doença renal, vários fatores podem atrapalhar: a diálise, os cochilos, a coceira, as pernas inquietas, a ansiedade, os remédios e até o horário do tratamento. Vamos organizar sua rotina de sono, mas também investigar causas específicas que podem estar mantendo esse cansaço.”
## O que eu levaria para a prática amanhã?
1. Perguntar sobre sono em todo paciente com fadiga importante.
2. Não tratar fadiga apenas ajustando AEE, ferro ou diálise sem perguntar sobre sono.
3. Orientar higiene do sono, mas sempre associar isso a uma busca ativa por causas renais e não renais de sono ruim.
## Limitações do estudo
O estudo é transversal, portanto, não prova que má higiene do sono causa fadiga ou pior sono. Além disso, os dados foram autorrelatados, a maioria dos participantes estava em hemodiálise e o instrumento de higiene do sono não foi validado especificamente para pacientes com DRC.
**Opinião NefroAtual**
A higiene do sono deve fazer parte do cuidado do paciente com DRC, mas não pode ser usada como explicação simplista para um problema complexo. Na prática, sono ruim e fadiga na DRC exigem uma abordagem multimodal: rotina de sono, horário da diálise, cochilos, prurido, pernas inquietas, apneia do sono, saúde mental, medicações e sintomas urêmicos. O recado é simples: não normalize o paciente renal cansado. Pergunte como ele dorme.
## Referência
Chu G. Sleep Hygiene Among People With CKD. Kidney International Reports, 2026.
Principal autora: Ginger Chu
Revista: Kidney International Reports
Ano: 2026