## Introdução
Imagine uma paciente em hemodiálise há mais de cinco anos, com dor crônica mal controlada, tabagista ativa... e que nunca mencionou usar cannabis porque ninguém perguntou. Esse cenário pode não ser tão incomum, não é verdade?
O HOPE Trial trouxe dados inéditos sobre esse cenário nos EUA. Vale entender o que o estudo realmente mostra antes de assumir qualquer conduta sobre os pacientes.
## Sobre o estudo
Análise secundária de um ensaio clínico randomizado multicêntrico, 103 centros de diálise americanos, 643 pacientes em hemodiálise com dor crônica moderada a intensa.
O estudo teve três objetivos:
1. Descrever a prevalência de uso de cannabis (atual, passado, nunca)
2. Identificar fatores associados ao uso atual, via regressão logística multivariável
3. Avaliar se o uso de cannabis modifica a resposta a uma intervenção comportamental para dor
Pacientes com transtorno por uso de opioides ou outro transtorno por uso de substâncias (exceto tabaco) foram excluídos do trial original.
## Resultados
Do total, 16% relataram uso atual de cannabis, 21% uso passado e 63% nunca usaram.
Na regressão ajustada, três achados se sustentaram:
**Idade**
O fator mais forte. Comparado a pacientes de 18 a 40 anos, a chance de uso atual caiu progressivamente com a idade, chegando a OR 0,02 (IC 0,00–0,13) em pacientes acima de 75 anos.
**Uso de outras substâncias**
Andou junto. Tabagismo atual (OR 3,22; IC 1,61–6,46), tabagismo passado (OR 2,42; IC 1,31–4,48) e uso de álcool (OR 2,82; IC 1,37–5,80) permaneceram associados de forma independente.
**Estado civil**
Pesou no resultado: pacientes casados ou com parceria estável tinham menor chance de uso atual (OR 0,49; IC 0,25–0,94).
**O que isso significa na prática**
Gravidade de dor, tempo de diálise e comorbidades psiquiátricas apareceram diferentes na análise bruta, mas não se sustentaram depois do ajuste. O uso de cannabis nesse cenário parece muito mais um marcador de perfil de consumo de substâncias do que uma resposta à dor em si.
Sobre eficácia, o achado central foi negativo: não houve diferença significativa em interferência de dor, gravidade de dor ou impressão global de mudança entre usuários atuais e não usuários, nem em 12 semanas nem na resposta à intervenção comportamental testada no trial.
## Algumas limitações importantes
- O uso foi autorreferido e dicotomizado (atual vs passado/nunca), sem dado de via, dose ou frequência, logo não dá para diferenciar uso recreativo esporádico de uso terapêutico estruturado.
- O trial excluiu pacientes com transtorno por uso de substâncias, o que provavelmente subestima a prevalência real de uso problemático na diálise.
- É estudo observacional dentro de um RCT desenhado para outro desfecho, portanto a ausência de associação com dor não permite concluir que cannabis não funciona para dor, apenas que não houve diferença nessa amostra específica.
- Eventos como internação e quedas foram numericamente maiores em usuários atuais, mas sem ajuste multivariável, o que impede qualquer leitura causal sobre segurança.
## Opinião do NefroAtual
As diretrizes atuais ainda não apresentam um posicionamento formal sobre cannabis em diálise, e é justamente essa lacuna que o estudo expõe. Enquanto isso, a American Heart Association já pediu mais dados sobre risco cardiovascular associado ao uso.
Na prática, o dado que realmente muda conduta não é sobre eficácia analgésica... é sobre triagem. Perguntar sobre cannabis de forma direta, sem julgamento, faz sentido justamente porque o uso concomitante de tabaco e álcool aparece fortemente ligado ao uso de cannabis, e é esse conjunto que merece uma avaliação mais completa.
Vale considerar que a ausência de efeito sobre dor nesse trial não fecha a porta para uso individual bem indicado. Apenas sugere que, hoje, não existe base para recomendar cannabis como estratégia de manejo de dor no paciente em diálise.
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## **Referência**
Scherer JS, Wu W, Wetmore JB, et al. Cannabis Use among People Receiving Maintenance Hemodialysis with Chronic Pain. Kidney360. 2026. DOI: 10.34067/KID.0000001198.