Dengue em pacientes com DRC: apresentação atípica, mais gravidade e por que os sinais de alarme da OMS podem falhar nesse grupo

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## Imagine...
Uma paciente de 74 anos, DRC estágio 4 por nefropatia diabética, que chega à emergência durante um surto de dengue. Sem mialgia, sem exantema, afebril. Só uma dispneia discreta, achado fácil de atribuir à cardiopatia de base ou à sobrecarga volêmica habitual da DRC.
É esse cenário que um estudo francês, publicado agora na *Nephrology Dialysis Transplantation* (**[link](https://academic.oup.com/ndt/advance-article/doi/10.1093/ndt/gfag151/8729102?searchresult=1)**), foi entender: como a dengue se comporta no paciente com DRC e por que os sinais de alarme da OMS parecem não servir para esse grupo. Tema direto ao nefrologista brasileiro, que convive com dengue todo verão.
## Metodologia
Coorte retrospectiva na Ilha de Reunião, durante a epidemia de dengue de 2019 (predominantemente DENV-2). Foram incluídos 1.498 casos confirmados de dengue em maiores de 15 anos, dos quais 105 (7%) tinham DRC por critérios KDIGO.
O desenho comparou três pontos principais:
- O fenótipo clínico e laboratorial da dengue em quem tem DRC versus quem não tem.
- Os fatores associados à dengue grave (critério OMS 2009) dentro do subgrupo com DRC.
- A associação entre DRC e dengue grave, com pareamento por idade, sexo, diabetes e hipertensão para isolar o efeito da doença renal.
Testaram ainda o desempenho diagnóstico dos sinais de alarme da OMS especificamente nesse subgrupo.
## Resultados
A DRC muda o quadro. Pacientes com DRC tiveram menos mialgia (34% vs 54%), menos artralgia e menos exantema, mas apresentaram:
- Mais dispneia (22% vs 8,9%).
- Mais encefalopatia (19% vs 7,8%).
- Mais coinfecção.
- Mais anemia e leucocitose.
- PCR mais alta e relação neutrófilo/plaqueta mais elevada.
O que isso significa na prática: o paciente com DRC frequentemente foge do script clássico. Sem mialgia, sem *rash*, muitas vezes afebril, e a dispneia é fácil de confundir com descompensação cardíaca ou hipervolemia habitual.
A DRC quase dobra o risco de forma grave: 46% evoluíram para dengue grave, contra 18% sem DRC (OR condicional 1,93; IC 1,21-3,06), efeito que se mantém ajustando para diabetes, febre e sinais cardiorrespiratórios (OR 1,78; IC 1,04-3,02). A mortalidade foi de 6,7% no grupo com DRC, contra 1,6% no restante, mais de quatro vezes maior.
A causa da gravidade não foi o choque clássico, foi a injúria renal aguda sobreposta, seguida de comprometimento cardíaco e neurológico.
Isso tem implicação direta: os sinais de alarme da OMS quase não funcionam nesse grupo. Só 31% dos pacientes com DRC e dengue grave tinham ao menos um sinal de alarme, sensibilidade que cai para 4% com dois sinais. A especificidade permanece alta, então o sinal ainda serve para excluir gravidade, mas não para rastreá-la.
Três variáveis previram gravidade de forma independente:
- diabetes insulino-dependente (OR 2,66)
- ausência de febre (paciente afebril com mais risco) e
- sinais cardiorrespiratórios já na admissão (OR 5,21).
## Limitações importantes
- Estudo unicêntrico e retrospectivo, logo sujeito a viés de seleção e de informação.
- A epidemia estudada foi predominantemente por DENV-2, o que limita a extrapolação para outros sorotipos, cenário relevante para o Brasil, onde DENV-1 a DENV-4 circulam de forma simultânea e variável a cada temporada.
- Parte dos casos foi confirmada apenas por IgM isolado, sem confirmação virológica, o que pode introduzir viés de classificação.
- Apenas 14% dos pacientes com DRC tinham função renal normal (KDIGO G1), portanto a amostra é enriquecida para doença renal mais avançada, o que pode superestimar o efeito em estágios iniciais.
## Opinião do NefroAtual
Jã sabemos que o paciente com DRC apresenta imunodeficiência secundária, e esse estudo dá corpo clínico a essa ideia aplicada à dengue. Não surpreende que a inflamação seja mais intensa e a resposta febril mais embotada; a uremia faz isso com neutrófilo, com plaqueta, com quase tudo.
Na prática brasileira, onde a dengue é epidemia recorrente, o dado que mais pesa é o desempenho ruim dos sinais de alarme da OMS nesse grupo. Vale considerar que o paciente com DRC, principalmente o diabético insulino-dependente, mereça um limiar mais baixo para observação, mesmo sem sinais clássicos. E talvez o achado mais acionável seja o inverso do esperado: ausência de febre e dispneia precoce pesam mais do que *rash* ou mialgia.
Não significa internar todo DRC com suspeita de dengue. Significa que plaquetopenia isolada, queda de hemoglobina ou taquipneia discreta merecem mais peso clínico do que teriam num paciente sem nefropatia.
💬 Agora coloca nos comentários: você já viu um caso de dengue atípica em paciente com DRC que quase passou despercebido?
## Referência:
** Randriamanana M, Diarra YM, Bertolotti A, Maillard O, Rosolen C, Le Flecher A, Julien M, Charroyer Q, Gérardin P, Di Ascia L. Atypical presentation and severity of Dengue fever in patients with CKD. Nephrol Dial Transplant. 2026;gfag151. doi:10.1093/ndt/gfag151.