## Introdução
Imagine uma paciente de 83 anos, TFG de 24, diabética, acompanhada só pelo médico de família há três anos.
A creatinina é dosada com regularidade. A RAC urinária, o bicarbonato e o PTH nunca foram pedidos, e o iBRA foi prescrito uma vez e ninguém sabe se ela continuou tomando.
Esse é o retrato da maioria dos idosos com DRC avançada. O estudo abaixo mede o tamanho dessa lacuna e aponta um caminho prático para fechá-la.
## Metodologia
É uma coorte populacional retrospectiva da região de Haia, na Holanda, feita com dados de rotina da atenção primária e de hospitais. Foram incluídos 1.969 pacientes com 65 anos ou mais e TFG < 30 confirmada (idade média de 81,8 anos, TFG mediana de 25, seguimento mediano de 2 anos).
A adesão foi avaliada por 13 indicadores de processo, agrupados em cinco domínios:
- Registro da DRC no prontuário
- Monitorização da função renal (TFG semestral, albuminúria anual)
- Fatores de risco modificáveis (PA, LDL, HbA1c)
- Prescrição (iSRAA, iSGLT2, evitar AINE)
- Complicações metabólicas (Hb, K, bicarbonato, Ca/P/PTH)
O estudo responde a uma pergunta simples: o cuidado recomendado está sendo feito? Se esse cuidado muda o desfecho é uma pergunta que ele não responde.
## Resultados
61,2% dos pacientes foram acompanhados exclusivamente na atenção primária. Esses pacientes eram mais idosos, mais frágeis e com menos diabetes. A TFG de base era igual nos dois grupos, o que mostra que o encaminhamento depende de outros fatores além do número.
| Indicador | Atenção primária | Nefrologia |
| :--- | :--- | :--- |
| Albuminúria anual | 47,8% | 65,2% |
| LDL anual | 50,9% | 68,3% |
| Bicarbonato | 24,8% | 79,7% |
| PTH | 14,2% | 66,8% |
| iSRAA (≥ 1 prescrição) | 56,9% | 84,4% |
| iSGLT2 | 4,3% | 10,1% |
O que preocupa vai além da diferença entre os cenários... nem a nefrologia chega perto do ideal em albuminúria e iSGLT2. O uso de iSGLT2 na nefrologia subiu para 18,9% em 2023, o que ainda é pouco.
O achado que interessa para a prática é outro: dentro da atenção primária, os pacientes com diabetes receberam um cuidado mais aderente na maioria dos indicadores. Na Holanda, esses pacientes entram em programas estruturados de manejo de doença crônica, com consultas agendadas, metas e checklist anual.
A adesão não variou com o nível socioeconômico nem com a origem do paciente.
Isso tem implicação direta: o principal determinante não parece ser o paciente, e sim a existência de um processo organizado.
## Opinião do NefroAtual
Ao monitorizar albuminúria, tratar acidose e otimizar a dupla iSRAA + iSGLT2 na DRC avançada modificamos desfechos e a qualidade de vida do paciente com DRC. O problema está na execução, e não na evidência. Este estudo sugere que a execução melhora quando o cuidado é estruturado, e não quando depende da memória de quem atende.
Na prática, isso pode significar adotar o modelo do diabetes para a DRC G4–G5: um checklist anual fixo (RAC, bicarbonato, Ca/P/PTH, LDL), a reconciliação ativa da medicação a cada consulta, com a pergunta "está tomando o iSGLT2?", e a DRC registrada como problema ativo no prontuário. No Brasil, onde boa parte desses pacientes nunca chega ao nefrologista, vale considerar protocolos compartilhados com a atenção primária, nos moldes do que já existe para hipertensão e diabetes.
No idoso frágil, nem todo exame precisa ser pedido. Ainda assim, a decisão de não pedir deve ser consciente, e não fruto de esquecimento.
**Agora coloca nos comentários:**
Você usa algum checklist estruturado para acompanhar seus pacientes com DRC G4–G5?
## **Referência:**
Jongejan M, Kist JM, Groeneveld MJH, Timmerman MM, Numans ME, Bos WJW, van Buren M. CKD-guideline adherence in primary and nephrology care for older patients with advanced CKD. Nephrol Dial Transplant. 2026. doi:10.1093/ndt/gfag17