Você recebe no consultório um paciente de 42 anos, sem DRC conhecida, com história de nefrolitíase recorrente. Exames recentes mostram cálcio sérico normal, função renal preservada, mas a TC evidencia nefrocalcinose medular discreta.
Você solicita uma urina de 24h e o resultado chama atenção: cálcio urinário elevado.
A pergunta inevitável é:
👉 Essa hipercalciúria é “idiopática” mesmo ou estou deixando passar uma causa tratável (ou perigosa)?
É exatamente isso que vamos destrinchar aqui.
## **🧠 Primeiro passo: o que é hipercalciúria, na prática?**
Hipercalciúria não é uma doença — é um fenótipo urinário.
Ela representa a ponta do iceberg de diferentes distúrbios:
• hormonais
• tubulares
• genéticos
• dietéticos
• medicamentosos
👉 O erro comum é parar no rótulo “hipercalciúria idiopática” sem investigar o porquê.
## 🔍 **Como organizar o raciocínio diagnóstico?**
O jeito mais útil é dividir em duas grandes perguntas clínicas:
1️⃣ A hipercalciúria vem acompanhada de hipercalcemia?
2️⃣ Ou é hipercalciúria com cálcio sérico normal?
Essa diferenciação muda completamente e é chave na investigação.
🔴 Hipercalciúria com hipercalcemia
Aqui, o rim é vítima, não o vilão!
Principais causas que o nefrologista NÃO pode deixar de pensar:
* Hiperparatireoidismo primário
* Sarcoidose e outras doenças granulomatosas como TB, Histoplasmose, Coccidioidomicose, Blastomicose, Doença de Crohn e Granulomatose com poliangiite
* Reações granulomatosas por corpo estranho (silicone, talco, implantes cosméticos, injeções oleosas ilícitas)
* Excesso de vitamina D (especialmente calcitriol)
* Síndrome leite-álcali (raro hoje após o uso de IBPs)
* Neoplasias (mais raras no consultório ambulatorial típico)
Pergunta prática:
👉 Se eu normalizar o cálcio sérico, a hipercalciúria melhora?
Na maioria dos casos, sim.
📌 **Dica prática**:
Cálcio “normal-alto” com PTH inapropriadamente normal já deve acender o alerta para HPT primário!
🔵 Hipercalciúria com cálcio sérico normal (a mais comum)
Aqui mora a maior parte dos erros mais comuns.
Principais causas:
* Acidose tubular renal distal (ATR tipo 1)
* Rim esponjoso medular
* Uso crônico de diurético de alça
* Hipocalemia crônica
* Doenças tubulares hereditárias (Dent, Bartter)
* Hipercalciúria idiopática (diagnóstico de exclusão!)
## 🧪 **O que pedir na investigação inicial?**
🔬 Exames séricos essenciais:
* Cálcio total e/ou iônico
* Fósforo
* PTH
* Bicarbonato
* Potássio
* Magnésio
👉 Acidose metabólica + urina alcalina? Pense em ATR distal.
Urina de 24 horas (duas amostras, se possível)
Não basta só o cálcio.
Avalie:
* Cálcio
* Citrato
* Oxalato
* Fósforo
* Sódio
* Creatinina (para validar coleta)
📌 Ciladas clássica:
Hipercalciúria + hipocitratúria não é “só dieta” até prova em contrário.
🧠 Armadilhas comuns que fazem o nefrologista errar
❌ “É hipercalciúria idiopática”
➡️ Só depois de excluir ATR distal, HPT, doenças granulomatosas e drogas.
❌ Urina alcalina = infecção
➡️ Urina alcalina persistente com acidose metabólica sugere ATR distal, não ITU.
❌ Tratar só com tiazídico
➡️ Sem corrigir hipocitratúria ou acidose, você piora nefrocalcinose.
❌ Não revisar medicações
➡️ Furosemida, topiramato, vitamina D e cálcio são culpados frequentes.
🧭 E quando pensar em causa genética?
Considere fortemente se:
* Nefrocalcinose precoce
* História familiar
* Proteinúria tubular
* Hipomagnesemia
* Progressão inexplicada da DRC
📌 Hoje, painéis genéticos têm papel crescente nesses casos.
## **🛠️ Como isso muda a conduta no consultório?**
Porque nem toda hipercalciúria se trata igual:
• ATR distal → alcalinização com cuidado
• Hipercalciúria idiopática → tiazídico + redução de sódio
• HPT → cirurgia muda história natural
• Sarcoidose → corticoide salva rim
👉 Diagnóstico correto define prognóstico renal.
🎯 Mensagem final do NefroAtual
Hipercalciúria não é diagnóstico final, é um sinal laboratorial.
Quem para neste adoado assumindo ser idiopático, perde a chance de tratar a causa — e de evitar nefrocalcinose, litíase recorrente e DRC.
Fez sentido?
E você?
👉 Costuma investigar hipercalciúria de forma sistemática ou ainda acaba rotulando muitos casos como “idiopáticos” na prática diária?