Inibidores de Inibidores SGLT2 em pacientes com mais de 80 anos: estudo com quase 48 mil pacientes com DRC encontra menor mortalidade e risco cardiovascular e renal!

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## Devemos iniciar um iSGLT2 aos 85 anos?
Imagine a seguinte situação clínica: uma paciente de 85 anos, hipertensa, com diabetes mellitus tipo 2 há 20 anos e doença renal crônica G3bA2, retorna ao ambulatório de nefrologia para acompanhamento.
Sua TFGe é de 34 mL/min/1,73 m², a relação albumina/creatinina urinária é de 280 mg/g e a hemoglobina glicada está em 7,2%. Ela utiliza losartana, anlodipino, metformina em dose ajustada à função renal e atorvastatina. Apresenta pressão arterial de 132/74 mmHg, sem hipotensão ortostática, e mantém independência para suas atividades diárias. A creatinina está estável nos últimos meses, mas houve perda progressiva da função renal nos últimos três anos.
Durante a consulta, você considera iniciar empagliflozina 10 mg ao dia, visando proteção renal e cardiovascular. Entretanto, surge a dúvida: “Essa paciente já tem 85 anos. Será que ainda terá benefício com o iSGLT2? Não seria melhor evitar mais uma medicação nessa idade? E o risco de eventos adversos?”
Afinal, a maior parte dos grandes ensaios clínicos com inibidores do cotransportador sódio-glicose tipo 2 (iSGLT2) incluiu pacientes substancialmente mais jovens. Embora os benefícios renais e cardiovasculares dessa classe já estejam bem estabelecidos em diferentes populações com DRC, ainda temos relativamente poucos dados específicos sobre pacientes com 80 anos ou mais. Será que esses benefícios também se estendem aos muito idosos?
Foi justamente essa pergunta que pesquisadores da Hannover Medical School, na Alemanha, procuraram responder em um estudo apresentado no ASN Kidney Week 2026, em Denver. E os resultados chamaram atenção, especialmente pela associação com menor mortalidade.
## 1. Por que estudar especificamente pacientes com mais de 80 anos?
Hoje, os iSGLT2 estão entre as principais intervenções farmacológicas para reduzir a progressão da DRC e o risco de determinados eventos cardiovasculares. Entretanto, existe uma questão importante quando pensamos na população geriátrica: a idade cronológica deve modificar nossa decisão de prescrever essas medicações?
Na prática clínica, pacientes acima dos 80 anos frequentemente apresentam características que dificultam a extrapolação direta dos resultados dos ensaios clínicos:
- Maior prevalência de multimorbidade e polifarmácia.
- Maior risco de hipotensão ortostática, desidratação e quedas.
- Possibilidade de fragilidade, sarcopenia e dependência funcional.
- Maior exposição a internações e doenças agudas.
- Expectativa de vida heterogênea, mesmo entre indivíduos da mesma faixa etária.
Além disso, os pacientes muito idosos foram pouco representados nos principais estudos randomizados de iSGLT2. Isso cria um dilema clínico: sabemos que a classe oferece proteção cardiorrenal, mas qual é a magnitude do benefício quando estamos tratando alguém com 85, 90 ou até mais de 95 anos? É importante entender que essa não é apenas uma questão de eficácia farmacológica. Também envolve o tempo necessário para obter benefício, a expectativa de vida, os objetivos do tratamento e o risco de eventos adversos.
## 2. Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores conduziram um estudo de coorte retrospectiva utilizando informações da plataforma TriNetX. Foram identificados pacientes com DRC e idade superior a 80 anos, comparando indivíduos que iniciaram um iSGLT2 com aqueles que não utilizaram essa classe.
Como os pacientes não foram randomizados, os autores empregaram uma estratégia de pareamento por escore de propensão (propensity score matching). A ideia foi tornar os grupos mais comparáveis, considerando características associadas à decisão de prescrever o medicamento e ao prognóstico. O pareamento incluiu comorbidades, parâmetros laboratoriais e fatores relacionados à fragilidade. Após esse procedimento, foram formados dois grupos com 23.765 pacientes cada.
**População analisada após o pareamento**
- Total: 47.530 pacientes
- Usuários de iSGLT2: 23.765 (50% da amostra)
- Não usuários: 23.765 (50% da amostra)
- Acompanhamento: 2 anos
**Desfechos**
- Desfecho primário: mortalidade por todas as causas.
- Desfechos secundários: eventos cardiovasculares maiores (MACE) e eventos renais maiores (MAKE).
A análise de tempo até o evento foi realizada utilizando modelos de riscos proporcionais de Cox, com apresentação de hazard ratios ajustados (aHR) e intervalos de confiança de 95%. As curvas de Kaplan-Meier foram construídas considerando o tempo até os eventos, com censura na última visita documentada de cada paciente.
Um detalhe importante: o resumo da ASN não apresenta as definições operacionais dos componentes de MACE e MAKE, nem informa as taxas absolutas de eventos em cada grupo. Portanto, a interpretação deve se concentrar nas associações relativas divulgadas pelos pesquisadores.
## 3. O uso de iSGLT2 esteve associado à redução da mortalidade?
Sim. E esse foi o principal resultado do estudo. Ao longo de dois anos, pacientes tratados com iSGLT2 apresentaram um risco de morte significativamente menor do que aqueles que não utilizaram a medicação.
**Mortalidade por todas as causas**
- 26,6% menor hazard relativo
- aHR 0,734 | IC 95% 0,705–0,765 | p < 0,0001
Em outras palavras, a utilização de iSGLT2 esteve associada a um hazard de mortalidade aproximadamente 27% menor em comparação com os não usuários. Esse resultado é especialmente relevante porque estamos falando de pessoas com mais de 80 anos, um grupo frequentemente considerado de maior risco para complicações relacionadas às medicações.
**E o benefício foi observado apenas em determinados subgrupos?**
Segundo os autores, não! A associação entre uso de iSGLT2 e menor mortalidade permaneceu consistente em todos os subgrupos previamente definidos. Esse resultado aumenta a relevância clínica dos achados, sugerindo que o benefício não ficou restrito a um único perfil de paciente dentro da população estudada. Entretanto, o resumo não apresenta os resultados numéricos individuais das análises de subgrupos. Por isso, não conseguimos determinar se a magnitude da associação foi semelhante entre pacientes de 80–84 anos e aqueles acima de 90 anos, por exemplo.
## 4. E quanto aos eventos renais? Os pacientes também tiveram benefício?
Essa é uma das perguntas mais importantes para nós, nefrologistas. Os resultados mostraram que sim. O uso de iSGLT2 esteve associado a um hazard aproximadamente 22,5% menor de eventos renais maiores (MAKE).
**Eventos renais maiores — MAKE**
- 22,5% menor
- aHR 0,775
- IC 95% 0,745–0,806 | p < 0,0001
Esse achado sugere que a associação entre uso de iSGLT2 e proteção renal pode se estender à população muito idosa. Mas aqui precisamos fazer uma ressalva: o resumo não apresenta a composição detalhada do desfecho MAKE. Em estudos nefrológicos, esse tipo de desfecho pode incluir componentes como perda importante de função renal, necessidade de terapia renal substitutiva ou morte, dependendo da definição adotada.
## 5. E os eventos cardiovasculares?
Os resultados também foram favoráveis aos iSGLT2. Após dois anos, os pacientes que utilizaram essa classe apresentaram um hazard 11,6% menor para eventos cardiovasculares maiores.
**Eventos cardiovasculares maiores — MACE**
- 11,6% menor
- aHR 0,884
- IC 95% 0,857–0,913 | p < 0,0001
É interessante observar que a magnitude da associação foi numericamente maior para mortalidade e eventos renais do que para eventos cardiovasculares maiores. Mas não devemos concluir, apenas com esses resultados, que o medicamento é necessariamente mais eficaz para um desfecho do que para outro. Estamos falando de desfechos diferentes, com incidências, composições e potenciais mecanismos distintos.
**Resumo dos três principais achados**
- Mortalidade: aHR 0,734 (IC 95% 0,705–0,765) | p < 0,0001
- MAKE: aHR 0,775 (IC 95% 0,745–0,806) | p < 0,0001
- MACE: aHR 0,884 (IC 95% 0,857–0,913) | p < 0,0001
## 6. Podemos concluir que devemos prescrever iSGLT2 para todos os pacientes acima de 80 anos?
Essa é a pergunta mais importante deste NefroUpdates. A resposta exige cautela por quatro motivos:
1. **Trata-se de um estudo observacional:** Embora o pareamento por escore de propensão ajude a equilibrar características, ele não elimina o risco de confundimento residual. Pacientes que receberam iSGLT2 podem ter apresentado características clínicas não capturadas, como maior autonomia funcional ou melhor adesão ao tratamento.
2. **Não temos os resultados absolutos:** O resumo apresenta aHR, mas não informa quantos pacientes morreram em cada grupo. Isso impede o cálculo da redução absoluta de risco e do número necessário para tratar (NNT), essencial em geriatria.
3. **O resumo não apresenta uma análise detalhada de segurança:** Não foram apresentados dados específicos de infecções genitais, cetoacidose, hipotensão, desidratação, quedas ou interrupção do tratamento.
4. **Idade cronológica não é a mesma coisa que fragilidade:** Dois pacientes com 85 anos podem ter prognósticos completamente diferentes. A idade cronológica é a mesma, mas o risco e o potencial benefício do tratamento podem ser distintos.
## 7. O que muda na prática clínica?
Vamos voltar à nossa paciente de 85 anos. Ela apresenta DRC G3bA2, diabetes tipo 2, albuminúria e redução progressiva da TFGe. Está hemodinamicamente estável, não apresenta sinais de depleção volêmica e mantém boa autonomia funcional. Nesse contexto, a idade de 85 anos, isoladamente, não deveria ser utilizada como argumento para deixar de considerar o início de um iSGLT2.
Mas e se estivéssemos diante de uma paciente de 92 anos, com fragilidade acentuada, hipotensão recorrente, baixa ingestão alimentar e múltiplas internações recentes? Nesse cenário, a decisão seria mais complexa. Precisaríamos considerar a possibilidade de eventos adversos, a necessidade de simplificação terapêutica e o potencial benefício dentro da expectativa de vida individual.
## Opinião NefroAtual
Esse estudo traz uma mensagem importante para a nossa prática, principalmente porque estamos acompanhando uma população cada vez mais idosa. Durante muito tempo, parte das decisões terapêuticas nessa faixa etária foi influenciada mais pela idade cronológica do que pela condição clínica individual.
Esse trabalho apresentado no ASN Kidney Week 2026 demonstra que, em uma população de quase 48 mil pacientes com DRC e idade superior a 80 anos, o uso de iSGLT2 esteve associado a uma redução relativa de aproximadamente 27% no hazard de mortalidade em dois anos. Entretanto, precisamos reconhecer que estamos diante de um estudo retrospectivo, baseado em dados observacionais.
Na minha visão, a principal contribuição desse trabalho não é sugerir que devemos prescrever iSGLT2 indiscriminadamente para todos os pacientes acima de 80 anos. A mensagem é outra: precisamos evitar que a idade cronológica, isoladamente, seja uma contraindicação informal a tratamentos que podem oferecer proteção renal e cardiovascular. Precisamos olhar menos para o número de anos que o paciente tem e mais para sua condição clínica, funcionalidade, comorbidades e objetivos de cuidado.
# Referência:
**ASN Kidney Week 2026**
**Artigo original:** Doricic J, Willerding JM, Melk A, et al. Extending Benefit to the Oldest Old: Efficacy of SGLT2 Inhibitors in Older Adults with CKD. American Society of Nephrology Kidney Week 2026. Abstract SA-OR031. Denver, October 24, 2026.