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## Começando pelo consultório...
Imagine um homem de 67 anos com DRC G3b, TFGe de 38 mL/min/1,73 m², albuminúria moderada e função renal estável há alguns anos. Nos últimos meses, entretanto, ele perdeu massa muscular, está mais fraco e começou treinamento resistido orientado.
Na consulta, vem a pergunta:
“Doutor, meu personal recomendou 5 g de creatina por dia. Posso usar mesmo tendo doença renal?”
A reação automática de muitos nefrologistas provavelmente seria:
**“Creatina? Com DRC? Melhor não...”**
Mas será que a creatina realmente é nefrotóxica? E, mais interessante ainda: será que estamos deixando de considerar uma estratégia potencialmente útil justamente em uma população com enorme carga de sarcopenia?
Uma revisão publicada por um grupo brasileiro em 2026 no *Nephrology Dialysis Transplantation* coloca essa discussão em perspectiva. A resposta, como quase sempre em nefrologia, é um pouco mais complicada do que simplesmente “pode” ou “não pode”.
## Primeiro: por que todo mundo associa creatina a lesão renal?
Existe uma confusão fisiológica muito compreensível. A creatina é convertida espontaneamente em creatinina. Aproximadamente 1–2% do pool corporal de creatina sofre essa conversão todos os dias.
1. Creatina suplementada → maior disponibilidade de creatina → maior geração de creatinina.
2. O resultado: a creatinina sérica pode subir um pouco.
3. Se utilizamos uma equação baseada em creatinina, a TFGe pode aparentemente cair, mesmo sem haver redução verdadeira da filtração glomerular.
Ou seja: a creatinina pode aumentar porque o paciente tomou creatina — e não necessariamente porque o rim piorou. Essa é uma das mensagens mais importantes do artigo.
## Então creatina não causa lesão renal?
Nos indivíduos sem DRC, os dados são bastante tranquilizadores. Revisões sistemáticas e metanálises avaliando suplementação de creatina encontraram um pequeno aumento da creatinina sérica, particularmente no início do tratamento, mas sem redução significativa da TFGe.
Uma metanálise recente, citada pelos autores, incluiu 19 ensaios randomizados e um estudo crossover e encontrou:
- ↑ discreto de creatinina
- ↔ ureia
- ↔ TFGe
Além disso, estudos não demonstraram consistentemente aumento de proteinúria, albuminúria ou outros marcadores de lesão renal. Uma análise de segurança envolvendo 684 ensaios clínicos randomizados e mais de 12.800 participantes também não encontrou relação entre dose ou duração da suplementação e aumento importante de eventos adversos.
**Mas existe uma pegadinha:** podemos extrapolar esses dados para pacientes com DRC? **NÃO.**
A maioria dos estudos de segurança foi realizada em indivíduos saudáveis, atletas, idosos sem DRC avançada ou pacientes com outras doenças crônicas. Dizer que a creatina parece segura em indivíduos sem doença renal não significa que já tenhamos demonstrado segurança em pacientes com DRC. Os autores reforçam repetidamente essa limitação.
## Por que pensar em dar creatina para um paciente renal?
Biologicamente, a ideia faz sentido. Cerca de 95% da creatina corporal encontra-se no músculo esquelético. A creatina é convertida em fosfocreatina, funcionando como um reservatório energético: **fosfocreatina + ADP → ATP**.
Com a suplementação, os estoques intramusculares de fosfocreatina podem aumentar em aproximadamente 20%, elevando a capacidade de regenerar ATP durante o esforço. Estudos experimentais sugerem efeitos sobre:
- ↑ Akt/mTOR e sinalização anabólica
- ↑ síntese e regeneração muscular
- ↓ proteólise
- ↓ oxidação de leucina
- ↓ estresse oxidativo
## O impacto na sarcopenia
Praticamente tudo na DRC conspira contra o músculo: inflamação crônica, acidose metabólica, resistência insulínica, disfunção mitocondrial, *protein-energy wasting*, sedentarismo e envelhecimento.
Isso leva a:
- ↓ massa muscular
- ↓ força
- ↓ performance física
- ↑ sarcopenia
- ↑ fragilidade
A sarcopenia na DRC está associada a hospitalização, incapacidade funcional e mortalidade. Se existe deficiência relativa de creatina e pior bioenergética muscular, seria razoável perguntar se a suplementação poderia ajudar.
## O que dizem os estudos em pacientes renais?
Temos poucos estudos, principalmente em hemodiálise:
1. **Estudo de 2008:** Pacientes em hemodiálise receberam 2 g/dia durante quatro semanas. Não foram observados eventos adversos clinicamente relevantes.
2. **Estado nutricional:** Em um ensaio, pacientes receberam 20 g/dia por 1 semana e 5 g/dia por mais 3 semanas. Houve melhora do *malnutrition-inflammation score* e menor perda de massa magra.
3. **Uso prolongado:** Um estudo de 1 ano com 5 g/dia em hemodiálise mostrou aumento de peso corporal, massa livre de gordura, índice de massa muscular esquelética e água intracelular.
4. **Capacidade funcional:** Um estudo piloto de oito semanas (5 g/dia) mostrou aumento de massa muscular, massa livre de gordura, água intracelular, melhora do ângulo de fase e do *Short Physical Performance Battery* (SPPB).
**Conclusão:** Ainda não é rotina. Os sinais são promissores, mas faltam estudos grandes sobre hospitalização, qualidade de vida, eventos adversos e mortalidade. No paciente com DRC não dialítica, a lacuna de conhecimento é ainda maior.
## E se o paciente já estiver tomando creatina?
Se o paciente começa a suplementar e a creatinina sobe de 1,7 mg/dL para 2,0 mg/dL, a primeira conclusão não deve ser, necessariamente, que a DRC progrediu ou que a creatina causou lesão.
O artigo sugere utilizar marcadores menos dependentes do metabolismo da creatina:
- Cistatina C
- TFGe baseada em cistatina C
- TFG medida (quando necessário)
- Albuminúria/proteinúria
- Marcadores de lesão tubular
## Mensagem final do NefroAtual
A creatina talvez esteja passando pelo mesmo fenômeno que já vimos com várias intervenções em nefrologia: uma preocupação fisiológica plausível acabou se transformando em uma contraindicação quase automática antes de termos evidências clínicas suficientes.
Até agora, a evidência não demonstra que a creatina seja nefrotóxica nas doses habituais em indivíduos sem DRC. Em pacientes em hemodiálise, pequenos estudos sugerem possíveis benefícios sobre massa muscular, composição corporal e capacidade funcional. Contudo, isso não significa que devamos prescrevê-la rotineiramente.
O ponto mais prático hoje é: **creatina pode aumentar a creatinina sem necessariamente reduzir a TFG.** Diante de um paciente que começou a suplementar e apresentou “piora da função renal”, vale pensar duas vezes antes de diagnosticar progressão da DRC — e considerar cistatina C e outros parâmetros para entender o que realmente aconteceu.
## Referência
:** [Creatine supplementation in patients with kidney disease – harm or benefit?](https://academic.oup.com/ndt/article/39/1/1/7457850)
**Autores:** Pereira JP et al. *Nephrology Dialysis Transplantation*, 2026.