## Introdução
Imagine um paciente com DRC estágio 3, hipertensão de difícil controle e edema de membros inferiores... furosemida entra na receita como parte do manejo habitual. Prescrevemos isso sem hesitar buscando um bom controle volêmico.
Mas esse estudo levanta uma pergunta que não costumamos fazer: essa mesma droga pode estar contribuindo para fibrilação atrial nessa população?
A associação entre diuréticos de alça e arritmias já havia sido descrita em pacientes com insuficiência cardíaca. O que esse trabalho traz de novo é o dado específico para a população com DRC, que tem vulnerabilidades fisiopatológicas próprias e onde a fibrilação atrial já tem prevalência estimada em quase 20%.
## Metodologia
Análise de coorte prospectiva usando dados do CRIC (Chronic Renal Insufficiency Cohort) - [link](https://journals.lww.com/kidney360/abstract/9900/association_of_loop_diuretic_use_with.943.aspx) - , com 4.607 pacientes com DRC e sem fibrilação atrial ao início. Seguimento médio de 9,3 anos.
**A pergunta:** o uso de diurético de alça no baseline se associa com hospitalização por fibrilação atrial ao longo do seguimento?
## Resultados
Ao longo do seguimento, 614 pacientes tiveram hospitalização por fibrilação atrial. O uso de diurético de alça no baseline foi associado a risco 41% maior no modelo completamente ajustado (aHR 1,41; IC 95%: 1,14–1,73).
O efeito foi consistente independente de sexo ou estágio da DRC — sem modificação de efeito significativa para nenhuma dessas variáveis. O achado mais relevante clinicamente foi a diferença entre pacientes com e sem insuficiência cardíaca concomitante:
- **Com insuficiência cardíaca:** aHR 3,00 (IC 1,22–7,37)
- **Sem insuficiência cardíaca:** aHR 1,33 (IC 1,06–1,66)
O que isso significa na prática: o risco existe mesmo nos pacientes sem insuficiência cardíaca diagnosticada, mas é consideravelmente maior nos pacientes cardiopatas.
## Algumas limitações importantes
- Desenho observacional, logo causalidade não pode ser estabelecida. A associação pode refletir confundimento residual por indicação, já que pacientes que usam diurético de alça têm maior carga de comorbidades.
- O uso de diurético de alça foi avaliado apenas no baseline, portanto mudanças ao longo do seguimento não foram totalmente capturadas, embora análise com exposição atualizada no tempo tenha mantido resultado similar (aHR 1,34).
- Pacientes com insuficiência cardíaca grau III e IV foram excluídos do CRIC, o que impede generalização justamente para os mais graves, onde o risco poderia ser maior.
- Ecocardiograma disponível em apenas 268 pacientes, o que impediu estratificação por fenótipo de insuficiência cardíaca (FEr vs FEp).
## Opinião do NefroAtual
O KDIGO não oferece orientação específica sobre monitoramento de arritmias em pacientes com DRC em uso de diuréticos de alça, e esse estudo não muda isso. O que ele faz é chamar atenção para uma associação que provavelmente reflete a complexidade cardiovascular da DRC, não um efeito direto e isolado da furosemida.
O dado mais útil na prática é a amplificação do risco no subgrupo com insuficiência cardíaca concomitante. Nesses pacientes, a vigilância para fibrilação atrial já deveria ser maior pelo próprio perfil de risco, esse estudo reforça esse raciocínio sem precisar acrescentar o diurético de alça como vilão independente.
Por ora, o que muda é a atenção, não a prescrição. Continuar prescrevendo furosemida quando há indicação, mas manter uma maior vigilância, repetir o ECG e ter um baixo limiar para investigar palpitações nesses pacientes.
**Agora coloca nos comentários:**
Você monitora ECG de rotina nos seus pacientes com DRC em uso crônico de furosemida?
## **Referência:**
Scovner Ravi K, LeFranc Torres A, Mc Causland FR. Association of Loop Diuretic Use with Hospitalization with Atrial Fibrillation in CKD. Kidney360. 2026. DOI: 10.34067/KID.0000001229.