## Exercício físico e lesão renal: o que o nefrologista precisa saber além de "faça uma atividade"

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Atividade física beneficia o rim — isso já sabemos. O problema é que a maioria dos pacientes que temos em seguimento não são simples corredores amadores saudáveis. São pacientes com DRC estágios 3–5, hipertensos, em diálise, ou pós-transplante. E os detalhes de como o exercício interage com a fisiologia renal nesses contextos são clinicamente relevantes.
O Core **[Curriculum do AJKD 2026]([https://www.ajkd.org/action/showPdf?pii=S0272-6386%2825%2901159-X](https://www.ajkd.org/action/showPdf?pii=S0272-6386%2825%2901159-X))** organiza bem esse campo — aqui estão os pontos que realmente importam para a prática nefrológica.
## O que acontece no rim durante o exercício
Com o aumento da intensidade, o sistema nervoso simpático redistribui fluxo para a musculatura esquelética, com vasoconstrição das arteríolas aferentes, redução do fluxo plasmático renal e queda da TFG. Isso é protetor, não patológico. O SRAA é ativado, aumentando a reabsorção de sódio e reduzindo a diurese.
O ponto crítico está quando se alcança umVO2 máximo ≥ 83%: acima disso, a depuração de creatinina cai de forma significativa e os marcadores de lesão tubular (NGAL, albuminúria) sobem.
Os AINEs amplificam esse dano ao bloquear as prostaglandinas que preservam o fluxo medular durante o esforço. Logo tevemos ter atenção aos pacientes que constumam utilizar AINE antes de treinar para prevenir dores.

**Figura 1.** Mudanças na fisiologia renal com atividade física)
## IRA no atleta de endurance: não confundir com lesão real
Em ultramaratonistas, a creatinina sérica pode subir até dobrar após a prova, com débito urinário preservado e creatinina urinária elevada. **Isso não é IRA**: é maior produção muscular de creatinina, não redução da filtração.
O critério KDIGO de ≥ 0,3 mg/dL em 48h foi construído para populações hospitalares, não para atletas com CK de 12.000 U/L. Cistatina C e biomarcadores urinários (NGAL, KIM-1) têm maior sensibilidade para injúria estrutural real nesse contexto — mas ainda são de pesquisa, sem pontos de corte validados para uso clínico rotineiro.
**O que isso muda na prática:** se um corredor chega ao ambulatório com creatinina elevada 2 dias após uma maratona, débito urinário normal e sem sintomas, não interne e não suspenda suplementos — observe e repita a creatinina em 48–72h. A tendência é resolução espontânea.
## Rabdomiólise por esforço: quando valorizar a CPK
CK ≥ 1.000 U/L (3–5× o limite superior) é o limiar diagnóstico habitual. CK acima de 10.000 é o que se associa de forma mais consistente com IRA — mas a magnitude da CK não prediz sozinha o risco renal individual.
- O tratamento é hidratação agressiva com salina isotônica, alvo de diurese de 200–300 mL/h.
- Bicarbonato não tem evidência sólida e traz risco de hipocalcemia.
- Manitol e furosemida não têm benefício demonstrado e são desaconselhados.
- TRS segue as indicações padrão — não há benefício de modalidade específica para clearance de mioglobina.
**Dado importante**: 65% dos casos de IRA por rabdomiólise em uma coorte 2009–2019 tinham usado AINEs antes da admissão. Esse é o ponto de prevenção mais direto: orientar explicitamente contra o uso de AINE peri-exercício em qualquer paciente, especialmente os com DRC.
**Retorno ao exercício:** aguardar 1–2 semanas. Cautela se sintomas persistem além de 1 semana, CK ≥ 100.000 IU/L ou > 5.000 IU/L após 2 semanas, ou se houve IRA ou síndrome compartimental.

**Figura 2.** Rabdomiolise secundário atividade física
## Hiponatremia associada ao exercício: o diagnóstico que se faz no contexto
Hiponatremia associada ao exercício (HAE) é sódio < 135 mEq/L durante ou em até 24 horas após atividade prolongada. O mecanismo dominante não é perda de sódio pelo suor — é ingestão excessiva de fluidos hipotônicos com ADH não osmótica cronicamente elevada pelo esforço.
Hiponatremia sintomática (confusão, convulsão) com ganho de peso durante a prova = HAE hipervolêmica → nesses casos o tratamento é solução salina hipertônica (3%) imediatamente. Salina isotônica vai piorar o quadro.
Fatores de risco: sexo feminino, baixo peso, ritmo lento (maior tempo de prova e mais oportunidades de hidratação), calor. Prevenção passa por não hidratar além da sede e incluir eletrólitos nas bebidas em provas > 2 horas.
## Exercício na DRC: a prescrição que ainda não fazemos bem
O benefício está bem documentado:
- Melhora de VO2max (~2,4 mL/kg/min)
- Redução da rigidez arterial
- Melhora da qualidade de vida
- Redução de hospitalizações e mortalidade — esse dado é mais robusto em hemodiálise.
A prescrição eficaz é ≥ 30 minutos de aeróbico moderado (40–60% VO2max), 3–5 vezes/semana, com ou sem resistência 2–3 vezes/semana. Os benefícios aparecem após 8–12 semanas de consistência.
No paciente em hemodiálise, o exercício intradialítico (ciclismo nas primeiras 2 horas, 30–45 min, 3×/semana) melhora adequação dialítica e tolerância à ultrafiltração — e não há evidência de dano ao acesso vascular com exercício leve de membro superior.
## Algumas limitações importantes
- Maioria dos estudos sobre IRA no atleta é observacional e heterogênea; pontos de corte de biomarcadores urinários não são validados para uso clínico rotineiro.
- Os benefícios do exercício na DRC vêm de estudos curtos (8–24 semanas), com alta taxa de abandono (até 70% em falência renal).
- Dados sobre impacto do exercício em TFGe e progressão da DRC são inconsistentes entre estudos.
- HAE tem tratamento bem definido para formas graves, mas o manejo das formas assintomáticas ainda depende muito do contexto clínico individual.
## Opinião NefroAtual
O erro mais comum não é prescrever exercício errado — é não prescrever nada. A maioria dos nossos pacientes com DRC está sedentária, e raramente a consulta nefrológica inclui uma conversa estruturada sobre atividade física.
O ponto mais acionável desse Core Currículo para a prática diária é o AINE: todo paciente ativo, especialmente aquele com DRC ou que usa suplementos, precisa ser orientado explicitamente a não usar AINs antes, durante ou após exercício intenso. Esse é o fator de risco modificável mais direto para IRA associada com o exercício.
Para o paciente em diálise, o exercício intradialítico é subutilizado no Brasil. Não requer infraestrutura cara — bicicletas estacionárias adaptadas e um protocolo de supervisão já são suficientes para os benefícios documentados.
Agora coloca nos comentários: você orienta rotineiramente seus pacientes com DRC sobre atividade física nas consultas?
## **Referência**
Aponte Becerra L, Mansour SG. Exercise and Kidney Health: Core Curriculum 2026. Am J Kidney Dis. 2026;87(2):246–259. doi:10.1053/j.ajkd.2025.09.014 [**[link]([https://www.ajkd.org/action/showPdf?pii=S0272-6386%2825%2901159-X](https://www.ajkd.org/action/showPdf?pii=S0272-6386%2825%2901159-X))**]