> 📄 Referência: Lian J et al. Biopsy-proven tyrosine kinase inhibitor–associated renal injury: a case series. Clinical Kidney Journal, 2025. 👉 \[[link](https://academic.oup.com/ckj/article/19/1/sfaf394/8379436)]
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## **Por que esse tema importa na prática do nefrologista?**
Na oncologia moderna, os inibidores de tirosina quinase (ITQs) viraram rotina. No consultório, eles chegam até nós como “proteinúria no paciente utilizando uma droga anti-VEGF”.
Mas aqui a pergunta é outra.
**Que tipo de lesão renal está por trás desse achado aparentemente banal?**
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## **O que esse artigo analisou?**
Este não é um estudo de farmacovigilância.
É uma série de casos com biópsia renal, algo raro nesse contexto.
Os autores analisaram:
1. 21 pacientes com lesão renal associada a ITQs
2. Todos com confirmação histopatológica
3. Exposição a ITQs entre 2015 e 2025
Isso muda completamente o nível da evidência.
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## **Quem eram esses pacientes?** 🔍
Antes de falar em patologia, vale olhar a clínica.
A apresentação mais comum foi:
* Proteinúria: Presente em 95%
* Edema: Em pouco mais da metade
* Hipertensão nova ou piora: Quase 50%
Aqui vem o ponto-chave.
A creatinina estava frequentemente normal ou pouco alterada.
Ou seja: **esperar queda de TFG é esperar demais**.
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## **Onde entra a fisiopatologia?**
O alvo principal dos ITQs analisados era o endotélio:
* VEGFR
* PDGFR
* HER
* BTK
Bloquear essas vias não afeta apenas o tumor. Afeta a integridade microvascular glomerular.
O resultado esperado não é necrose tubular.
**É lesão endotelial crônica, silenciosa e progressiva**.
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## **O que a biópsia mostrou de forma consistente** …
Aqui está um achado importante, em cerca de 80% dos casos, a biópsia revelou:
**Microangiopatia trombótica limitada ao rim**
* Sem anemia hemolítica.
* Sem plaquetopenia relevante.
* Sem quadro sistêmico clássico de MAT.
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## **Existiam outras lesões?**
Sim, mas como exceção.
Foram descritas associações com:
* • Nefropatia por IgA
* • GESF
* • NIA
Na prática, essas associações não anulam o padrão dominante.
Elas reforçam a complexidade do dano endotelial induzido por ITQs.
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## **E o que foi feito com esses pacientes?**
Aqui entra a parte mais útil para a prática.
A estratégia adotada foi:
* Suspensão ou troca do ITQs: Em 72%
* Iniciar iECA/BRA: Terapia de base
* Imunossupressão: Apenas em casos selecionados, com componente imune
Nada de tratamento agressivo indiscriminado.
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## **Como foi a resposta renal?**
Ótima — e isso é crucial.
Durante o seguimento:
* 55% tiveram remissão parcial ou completa da proteinúria
* 100% dos pacientes vivos mantiveram função renal estável
→ Interpretação clínica: mais da metade reduziu carga proteica de forma relevante. Nenhum evoluiu para DRC terminal.
Reconhecer cedo fez diferença.
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## **Aqui vale um alerta direto**
Proteinúria em paciente em uso de ITQs não é algo inofensivo.
E ausência de anemia hemolítica não exclui MAT.
Na dúvida, biopsiar cedo protege o rim.
Esperar piorar a creatinina pode significar perder a janela de reversibilidade.
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## **O que esse estudo muda na nossa conduta?**
Ele reforça três pontos práticos:
* Proteinúria + HAS em paciente oncológico exigem investigação ativa
* MAT limitada ao rim deve entrar no diagnóstico diferencial
* A biópsia renal orienta conduta, não é apenas confirmatória
**Isso é nefrologia de precisão aplicada à oncologia**.
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## 📌 **Mensagem central do estudo**:
A nefrotoxicidade por ITQs é predominantemente uma lesão endotelial crônica do tipo MAT limitada ao rim, frequentemente reversível quando reconhecida e manejada precocemente.
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## **Mensagem final**
Na era dos ITQs, o erro não é suspender cedo demais.
O erro é normalizar a proteinúria e perder o timing.