## Introdução
Imagine uma paciente com glomerulonefrite crônica, TFG de 42, RAC de 900, já em uso de BRA em dose máxima e SGLT2i... e ainda assim perdendo função renal a cada retorno. Você já esgotou o que o KDIGO 2024 recomenda para esse perfil — e a curva não muda. O FIND-CKD testou exatamente se a finerenona tem espaço nesse cenário: DRC sem diabetes, com albuminúria relevante, em cima do tratamento padrão.
## Metodologia
RCT fase 3, duplo-cego, placebo-controlado, com 1.584 pacientes adultos sem diabetes, TFG entre 25–90, RAC entre 200–3500, todos em uso de iECA ou BRA. Estratificação por uso de SGLT2i e nível de albuminúria. Finerenona 10 ou 20 mg/dia conforme TFG basal. Seguimento mediano de 36,6 meses.
A pergunta central: finerenona desacelera a queda de TFG nessa população?
## Resultados
### Desfecho primário — inclinação total da TFG (baseline ao mês 32)
- Finerenona: −3,3 ml/min/1,73m²/ano
- Placebo: −4,0 ml/min/1,73m²/ano
- Diferença: 0,7 ml/min/1,73m²/ano (IC 95% 0,3–1,1; p<0,001)
## Atenção
O número parece modesto. Mas é a mesma magnitude observada com iECA, BRA e SGLT2i — a referência que sustenta o benefício desses fármacos há décadas.
### Mecanismo e curva de TFG
O mecanismo tem uma pegadinha importante: nos primeiros 3 meses, a finerenona causa queda aguda de TFG (−1,2 ml/min/1,73m² a mais que o placebo), efeito hemodinâmico esperado. Depois disso, a curva crônica é significativamente mais favorável: −2,9 vs −4,1 ml/min/1,73m²/ano do mês 3 em diante. Isso significa que o benefício real provavelmente é subestimado pelo desfecho total.
### Desfecho composto renal-cardiovascular
HR 0,77; IC 95% 0,60–0,99; p=0,04: redução de 23% no risco de eventos combinados — queda sustentada ≥57% de TFG, falência renal, hospitalização por IC ou morte cardiovascular.
### Albuminúria
Redução de 41,3% no grupo finerenona vs 9,1% no placebo aos 6 meses. Mais de 56% dos pacientes atingiram redução ≥30% na RAC — vs 24% no placebo. O benefício foi consistente entre subgrupos, incluindo os 17% que já usavam iSGLT2.
### Segurança
- Hipercalemia: 17,0% vs 13,3%; diferença real, mas com descontinuação definitiva em apenas 1,5% no braço finerenona
- Hipercalemia grave (K>6,0): 4,3% vs 2,3%
- Sem hipercalemia fatal; IRA similar entre os grupos
## Algumas limitações importantes
- O desfecho primário é surrogate (inclinação de TFG), logo o estudo não foi dimensionado para desfechos clínicos duros — o dado de eventos compostos é secundário e deve ser interpretado com cautela.
- Excluídos: LES, vasculite ANCA, DRPAD — ou seja, as glomerulopatias que mais motivariam essa pergunta clínica ficaram de fora.
- Apenas 17% usavam SGLT2i — a combinação com o quarto pilar não foi testada formalmente, o que impede conclusões sobre sinergismo.
- Financiado pela Bayer, com análise independente confirmada, mas o contexto de conflito de interesse não pode ser ignorado.
## Opinião do NefroAtual
O KDIGO 2024 já listava os antagonistas do receptor mineralocorticoide não esteroidais como terapia em investigação para DRC não diabética — e o FIND-CKD entrega a evidência que faltava para avançar essa conversa. A magnitude do efeito (0,7 ml/min/ano) é real e clinicamente relevante, especialmente quando somada a um tratamento que já inclui bloqueio do SRAA e SGLT2i.
O perfil de hipercalemia merece atenção, mas não é proibitivo. A descontinuação por hipercalemia foi baixa (1,5%), e a queda aguda de TFG nos primeiros meses, que assusta na prática, é reversível e não deve ser critério de suspensão. O padrão já conhecido no diabético se repete aqui.
O que muda na prática imediata é mais modesto: o FIND-CKD justifica considerar finerenona no paciente com DRC não diabética de alto risco (RAC elevada), já em dose máxima de bloqueador do SRAA, com ou sem iSGLT2, especialmente quando a curva de TFG não estabiliza. Registros de aprovação regulatória ainda estão em curso, mas a evidência para a discussão clínica já está na mesa.
A finerenona não é mais droga do diabético.
## Referência
Heerspink HJL, Neuen BL, Agarwal R, et al. Finerenone in Persons with Chronic Kidney Disease without Diabetes. N Engl J Med. 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2604625.