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## Caso clínico
Você está no ambulatório avaliando um paciente de 64 anos com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, TFGe de 48 ml/min/1,73m² e albuminúria persistente de 450 mg/g, mesmo em uso de IECA e inibidor de SGLT2.
A pressão está controlada, mas a albuminúria permanece elevada.
Você pensa:
- • **Devo iniciar finerenona, como recomendam as diretrizes?**
- • **Ou espironolactona poderia oferecer benefício semelhante, especialmente considerando o custo muito menor?**
Essa dúvida é cada vez mais comum na prática clínica.
**Mas afinal:** os antagonistas do receptor mineralocorticoide esteroidais e não esteroidais são equivalentes na DRC?
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## Por que bloquear o receptor mineralocorticoide na DRC?
O receptor mineralocorticoide é um dos principais mediadores da lesão inflamatória e fibrótica renal.
Quando ativado pela aldosterona ele promove:
- • reabsorção de sódio
- • secreção de potássio
- • ativação de citocinas pró-inflamatórias
- • recrutamento de células inflamatórias
- • fibrose renal e cardíaca
O resultado é progressão da doença renal e maior risco cardiovascular.
Os antagonistas desse receptor bloqueiam essa cascata, reduzindo inflamação e fibrose.
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**Figure 1.** Comparação entre espironolactona e finerenona na doença renal crônica, incluindo mecanismo de ação, risco de hipercalemia e evidências de estudos clínicos.

Em pacientes com DRC (TFGe ≥45 ml/min/1,73 m²) já em uso de inibidor de SGLT2, surge uma questão importante: **a espironolactona poderia oferecer eficácia e segurança comparáveis à finerenona?**
Caso estudos demonstrem não inferioridade, a espironolactona poderia se consolidar como uma alternativa terapêutica mais acessível.
Por outro lado, se a finerenona mostrar superioridade, seu maior custo seria justificado e a prescrição poderia aumentar.
Em qualquer cenário, evidências comparativas ajudariam a substituir decisões baseadas apenas em custo por decisões guiadas por evidência científica.
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## Finerenona: o que sabemos até agora?
A finerenona é um antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide.
Diferente da espironolactona, ela atua como agonista inverso, bloqueando mais efetivamente vias de inflamação e fibrose.
Nos grandes estudos com mais de 13.000 pacientes com diabetes tipo 2 e DRC, foram observados:
- • 23% de redução de desfechos renais
- • 14% de redução de eventos cardiovasculares
- • 32% de redução da albuminúria
Esses resultados levaram à recomendação nas diretrizes KDIGO e ESC para pacientes com diabetes tipo 2 e DRC.
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## Mas a espironolactona não faz algo parecido?
Essa é a grande pergunta.
Em uma meta-análise de estudos com antagonistas esteroidais:
- • houve redução de 25% na relação albumina/creatinina urinária
- • e redução de 54% na proteinúria
Ou seja: o efeito antiproteinúrico claramente existe.
O problema é que ainda não temos grandes ensaios clínicos mostrando redução de desfechos renais ou cardiovasculares, como ocorreu com a finerenona.
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## E quanto ao risco de hipercalemia?
Esse é o principal receio.
O risco de hipercalemia depende muito da função renal:
- • cerca de 2 vezes maior com TFGe 30–44
- • até 4 vezes maior com TFGe 15–29 ml/min/1,73m²
Mas existe um ponto interessante:
Aproximadamente 90% dos pacientes com DRC nos EUA têm TFGe ≥45 ml/min/1,73m², portanto não pertencem ao grupo de maior risco.
Estudos comparativos sugerem:
- • Hipercalemia leve/moderada
- o espironolactona: ~11–12%
- o finerenona: ~8–9%
- • Hipercalemia grave
- o taxas semelhantes entre as duas drogas.
Entretanto, esses dados vêm de análises indiretas ou populações diferentes, o que limita conclusões definitivas.
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## Existe um grande elefante na sala: **o custo**
**Um ponto destacado no artigo é o custo**.
Nos Estados Unidos:
- • Finerenona: > 7000 dólares por ano
- • Espironolactona genérica: < 100 dólares por ano
Não surpreende que, na prática clínica, para cada 100 pacientes que recebem espironolactona, apenas cerca de 2–3 recebem finerenona.
Além disso, muitas seguradoras exigem autorização prévia, o que atrasa o início do tratamento.
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## O que ainda falta responder?
Segundo os autores, o grande estudo que falta é um ensaio clínico head-to-head comparando:
- • espironolactona
- • finerenona
Em pacientes com:
- • TFGe ≥45 ml/min/1,73m²
- • albuminúria ≥30 mg/g
- • uso otimizado de IECA/BRA + ISGLT2
Os principais desfechos poderiam ser:
- • redução da albuminúria
- • incidência de hipercalemia
Se a espironolactona demonstrar não inferioridade, poderia surgir um modelo de tratamento em etapas:
- 1️⃣ iniciar espironolactona
- 2️⃣ usar finerenona apenas se houver intolerância ou efeitos hormonais.
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## A mensagem final do NefroAtual
A finerenona é atualmente o antagonista do receptor mineralocorticoide com evidência robusta de benefício renal e cardiovascular na DRC diabética.
Mas a espironolactona continua sendo uma droga potente, barata e com claro efeito antiproteinúrico.
Talvez a grande questão não seja qual é melhor, mas sim em qual paciente cada uma deve ser utilizada.
Principalmente em um cenário onde custo e acesso ainda são barreiras importantes.
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E você, já considerou usar espironolactona como estratégia antiproteinúrica em pacientes com DRC em uso de IECA/BRA e SGLT2?
Ou prefere iniciar diretamente finerenona na prática clínica?
## Referência
Khan MS et al. Steroidal versus Nonsteroidal Mineralocorticoid Receptor Antagonists in CKD. Journal of the American Society of Nephrology (JASN), 2026. **[Link](https://journals.lww.com/jasn/fulltext/9900/steroidal_versus_nonsteroidal_mineralocorticoid.920.aspx)**