Displasia fibromuscular renal: qual imagem pedir, quando tratar com angioplastia e por que evitar o stent

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## Introdução
Imagine uma paciente jovem, com hipertensão de início precoce e resistente. O zumbido pulsátil que ela menciona de passagem costuma ser ignorado, e a investigação de causa secundária às vezes para na primeira estenose encontrada.
Essa revisão, publicada na *Clinical Kidney Journal* em nome da ERA, reúne dez pontos práticos sobre displasia fibromuscular (DFM). Para o nefrologista, o interesse está em três frentes: quando suspeitar, qual imagem pedir e, principalmente, quando (não) intervir.
## Quando suspeitar
- Hipertensão de início precoce ou resistente
- Zumbido pulsátil
- Sopro cervical ou cefaleia inexplicada
- Infarto renal, dissecção carotídea/vertebral ou pré-eclâmpsia grave/precoce
O atraso diagnóstico médio beira 5 anos. Isso tem implicação direta: sinais isolados não justificam rastreio, mas a combinação deles, em mulher jovem, deve acionar imagem.
## Estratégia de imagem
- Angio-TC (CTA) ou angio-RM: primeira linha para suspeita de DFM renal
- Angiografia intra-arterial: reservada para alta suspeita com imagem não invasiva negativa
- Avaliação "cabeça-pelve" única: feita no diagnóstico, para rastrear acometimento multivascular
O envolvimento multivascular chega a 57% dos casos. Feita essa varredura única, reavaliação sistemática de todos os leitos não é recomendada; o seguimento segue o território já conhecido e sintomas novos, não um protocolo fixo.
O Doppler renal segue controverso: limiares extrapolados de doença aterosclerótica, exame operador-dependente, risco de perder lesões distais. Vale reservá-lo a centros com expertise específica, sem substituir a imagem transversal.
## Tratamento clínico
- Cessação do tabagismo: maior impacto sobre o fenótipo, com menos aneurisma e menos evento vascular maior
- IECA ou BRA: preferidos quando há acometimento de artéria renal
- Estatina: não entra rotineiramente, sem indicação lipídica independente
- AAS em dose baixa: considerar em doença cerebrovascular ou multivessel, individualizado pelo risco de sangramento
## Intervenção: Angioplastia vs. Stent
Angioplastia, sim. Stent, quase nunca. Nem toda estenose precisa de intervenção, a maioria responde ao tratamento clínico. A angioplastia isolada fica reservada para lesões hemodinamicamente significativas, sobretudo em pacientes jovens com hipertensão de início recente, o perfil com maior chance de cura pressórica pós-revascularização.
58% de oclusão intra-stent sintomática. Foi isso que o ARCADIA-POL encontrou ao avaliar stent sistemático na DFM renal, sem benefício clínico associado. O que isso significa na prática: stent fica restrito a complicação de procedimento, como dissecção limitante de fluxo, pseudoaneurisma ou ruptura, nunca como estratégia primária.
## Gestação
A DFM não contraindica engravidar. Hipertensão gestacional ocorre em 25%, pré-eclâmpsia em 7,5%, prematuridade em 20%, acima da população geral, mas abaixo da hipertensão crônica essencial. Complicação vascular grave é rara, abaixo de 1%. O aconselhamento pré-concepcional deve mapear estenoses e aneurismas, com reparo profilático quando indicado antes da gravidez.
### Limitações importantes
- A revisão apoia-se majoritariamente em dados observacionais, logo as recomendações sobre PTA, aspirina e metas pressóricas carecem de validação em ensaios randomizados específicos para DFM
- Os dados de complicação do PTA vêm de estudos mais antigos, logo o risco atual em centros com expertise pode ser menor
- Não há dado prospectivo de custo-efetividade para rastreio familiar, o que impede recomendá-lo mesmo em parentes de primeiro grau assintomáticos
## Opinião do NefroAtual
O Consenso Internacional de 2019 já tratava o stent como exceção, não regra, na DFM renal. Essa revisão da ERA reforça o ponto com números do ARCADIA-POL, e é hora de isso virar prática.
Na rotina brasileira, IECA ou BRA seguem sendo escolha racional no acometimento renal, com atenção redobrada à função renal e ao potássio na doença bilateral. E vale abandonar o reflexo de pedir estatina só porque existe estenose renal; aqui a fisiopatologia é outra. A imagem cabeça-pelve única no diagnóstico parece detalhe operacional, mas não é: DFM raramente é doença de um vaso só.
## **Referência:**
Piotte J, Stoenoiu MS, Jamison C, Woywodt A, Persu A, Chrysochou C. Ten tips for the diagnosis and management of fibromuscular dysplasia. Clin Kidney J. 2026;19(8):sfag234. doi:10.1093/ckj/sfag234 ([link](https://academic.oup.com/ckj/article/19/8/sfag234/8733948?searchresult=1))