
Finerenona na DRC não diabética: o que o FIND-CKD muda na prática clínica

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Será que a finerenona pode representar a próxima etapa no manejo do risco residual de progressão renal nas glomerulopatias proteinúricas? Confira os detalhes do estudo.
## Caso clínico
Paciente de 48 anos com nefropatia por IgA, em dose máxima de IECA/BRA e usando iSGLT2, mantém albuminúria de 900 mg/g e TFGe de 48 ml/min/1,73 m². A dúvida é simples: a finerenona pode oferecer proteção renal adicional nas glomerulopatias não diabéticas?
## Qual foi a pergunta do estudo?
Avaliar se a finerenona reduz albuminúria, desacelera a perda de função renal e diminui eventos renais em pacientes com DRC não diabética por doenças glomerulares.
## Como foi o estudo?
Análise pré-especificada do estudo FIND-CKD, ensaio clínico fase 3, randomizado e controlado por placebo. Dos 1.584 participantes, 903 tinham glomerulopatias, incluindo:
- Nefropatia por IgA (416)
- GESF (215)
- Nefropatia membranosa (90)
- GN membranoproliferativa (26)
- Outras glomerulopatias (156)
Todos utilizavam IECA ou BRA em dose máxima tolerada.
## O que aconteceu com a TFGe?
A finerenona desacelerou a queda da TFGe. A inclinação total da TFGe até 32 meses foi:
- Finerenona: −3,50 ml/min/1,73 m² por ano
- Placebo: −4,23 ml/min/1,73 m² por ano
- Diferença: 0,73 ml/min/1,73 m² por ano a favor da finerenona
Pode parecer pouco à primeira vista, mas em glomerulopatias crônicas, que evoluem ao longo de anos ou décadas, reduzir a velocidade de perda da TFGe pode ser muito relevante. Há uma queda inicial discreta da TFGe com finerenona, seguida por uma trajetória crônica mais favorável em comparação ao placebo. Essa queda inicial lembra o que já conhecemos com outras terapias nefroprotetoras, como IECA/BRA e iSGLT2. A mensagem prática é: não se assuste com uma pequena queda inicial da TFGe se o paciente está bem monitorado. O benefício aparece na inclinação crônica da curva.
## E a albuminúria?
Aqui o resultado foi bem expressivo. A finerenona reduziu a relação albumina/creatinina urinária em 42% aos 12 meses em comparação ao placebo e reduziu a relação proteína/creatinina urinária em 52%. Esse é um ponto muito forte do artigo. Em glomerulopatias, proteinúria persistente é um marcador central de risco. Se o paciente já está com tratamento conservador otimizado e ainda mantém proteinúria, a finerenona pode ser a próxima camada de nefroproteção.
## O efeito foi igual em todas as glomerulopatias?
De forma geral, o benefício foi consistente entre os subtipos. Os dados foram mais robustos para os grupos maiores, especialmente nefropatia por IgA e GESF. Na nefropatia por IgA, a redução da albuminúria foi expressiva, aproximadamente 47% aos 12 meses. Na GESF, o efeito na inclinação da TFGe pareceu particularmente interessante. Para nefropatia membranosa e glomerulonefrite membranoproliferativa, os números foram menores e os intervalos de confiança mais largos. A finerenona parece atuar mais como terapia de via comum de progressão do que como tratamento específico de uma glomerulopatia.
## Albuminúria e proteinúria (12 meses)
- Redução de 42% da albuminúria
- Redução de 52% da proteinúria
- O benefício foi observado mesmo sobre tratamento padrão otimizado.
## Eventos renais
A finerenona reduziu o risco de falência renal ou queda sustentada ≥40% da TFGe:
- HR: 0,74
- Redução relativa aproximada de 26%
- Resultado exploratório, mas clinicamente relevante.
## Segurança
A tolerabilidade foi boa:
- Eventos adversos graves: semelhantes entre os grupos
- Hipercalemia grave: 0,9% em ambos os braços
- Baixa taxa de suspensão do tratamento
Importante lembrar que os pacientes tinham potássio basal ≤4,8 mmol/L e foram monitorados regularmente.
## O que muda na prática?
A finerenona surge como uma possível nova camada de nefroproteção para pacientes com:
- DRC não diabética por glomerulopatia
- Proteinúria persistente
- Uso otimizado de IECA/BRA
- Potássio normal
- Com ou sem iSGLT2
Ela não substitui tratamento específico da doença, imunossupressão quando indicada ou outras medidas nefroprotetoras.
## Limitações
- Análise de subgrupo, embora pré-especificada
- Nem todos tinham biópsia renal confirmatória
- Pouco poder para avaliar cada glomerulopatia isoladamente
- Exclusão de nefrite lúpica, vasculite ANCA e pacientes em imunossupressão recente
## Mensagem final do NefroAtual
O FIND-CKD sugere que a finerenona pode reduzir proteinúria e retardar a progressão da DRC em pacientes com glomerulopatias não diabéticas. Para o paciente com nefropatia por IgA ou GESF que continua proteinúrico apesar de IECA/BRA e iSGLT2, a finerenona pode representar mais uma estratégia para reduzir o risco residual de progressão renal. A principal mensagem é que a nefroproteção nas glomerulopatias está se tornando cada vez mais uma abordagem em camadas — e a finerenona pode ser uma delas.
## Referência
Neuen BL et al. Finerenone in Patients With Chronic Kidney Disease Due to Glomerular Diseases: A Randomized Clinical Trial. JAMA, 2026.](https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2815678)