> 📄 Referência: Babitt JL et al. Executive Summary of the KDIGO 2026 Clinical Practice Guideline for the Management of Anemia in Chronic Kidney Disease. Kidney International, 2026. **[Link](https://kdigo.org/wp-content/uploads/2026/01/KDIGO-2026-Anemia-in-CKD-Guideline-Executive-Summary.pdf)**
## **Você está conduzindo um paciente com anemia, já corrigiu a deficiência de ferro…**
A saturação de transferrina saiu de 18% para 28%.
Ferritina estabilizou.
Mesmo assim, a Hb segue em 9,2–9,5 g/dL.
É aqui que a conversa muda no ambulatório.
**A pergunta deixa de ser “é ferro?”**
**E passa a ser: quando o benefício do AEE supera o risco?**
***
O KDIGO 2026 é explícito em algo que nem sempre praticamos com a mesma clareza.
AEE não é tratamento obrigatório da anemia da DRC.
É uma ferramenta para objetivos específicos:
* • Reduzir transfusão
* • Melhorar sintomas atribuíveis à anemia
Não há evidência de que AEE:
* • Reduza eventos cardiovasculares
* • Retarde progressão da DRC
* • Melhore sobrevida
Isso muda completamente a lógica de “normalizar Hb”.
O primeiro ponto técnico importante é quando iniciar AEE.
Em hemodiálise, o KDIGO sugere que:
1-Hb ≤9–10 g/dL é um limiar razoável para iniciar AEE
2-A decisão deve considerar:
* o Sintomas
* o Risco trombótico
* o Histórico de AVC
* o Frequência de transfusão prévia
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## Na prática:
Paciente com alto risco cardiovascular pode tolerar Hb mais baixa antes de iniciar AEE.
Em DRC não dialítica, a diretriz é ainda mais cautelosa.
Para a maioria dos pacientes:
• Considerar AEE quando Hb estiver entre 8,5–10 g/dL
Mas isso não é automático.
O KDIGO enfatiza individualização baseada em:
* • Sintomas claramente atribuíveis à anemia
* • Risco de transfusão
* • Doença cardiovascular ou tromboembólica
* • História de malignidade
Aqui, tratar número isolado é erro comum!
Um ponto crítico para o especialista: alvo de hemoglobina.
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## O KDIGO 2026 reafirma algo bem estabelecido:
não perseguir Hb “normal”.
Para adultos em uso de AEE:
* • Alvo recomendado: Hb ≤11,5 g/dL
* • Faixa típica: 10–11,5 g/dL
Acima disso, o risco começa a superar o benefício.
**Na prática:**
* • Hipertensão
* • AVC
* • Trombose de acesso
* • Eventos cardiovasculares
Tudo isso aumenta com Hb mais alta induzida por AEE.
Outro detalhe técnico relevante: velocidade de correção!
**O guideline recomenda:**
* • Evitar aumento de Hb >1 g/dL em 2 semanas
* • **Se isso ocorrer, reduzir dose do AEE em 25–50%**
## Aqui está um erro frequente:
👉 insistir na dose apesar da subida rápida, “aproveitando a resposta”.
Isso aumenta risco sem ganho clínico sustentado, entendido?
Agora entramos no tema mais novo — e mais controverso.
## Onde entram os HIF-PHIs no KDIGO 2026?
O guideline é conservador, e deliberadamente.
Apesar de eficácia semelhante ao AEE para elevar Hb, o KDIGO:
* • Prefere AEE como primeira linha
* • Valoriza a longa experiência clínica com AEE
* • Reconhece incertezas de segurança cardiovascular com HIF-PHIs
Isso é especialmente relevante fora da diálise.
## Segundo o KDIGO, há dois cenários principais onde HIF-PHI pode ser considerado:
1. • Hiporresponsividade ou intolerância ao AEE
2. • Situações em que AEE parenteral é impraticável
* – Falta de acesso
* – Preferência por terapia oral
* – Logística de refrigeração
Mesmo nesses casos, o guideline exige discussão explícita de risco-benefício.
O KDIGO alerta para populações onde o uso de HIF-PHI merece extrema cautela:
* • Doença cardiovascular recente
* • Eventos trombóticos prévios
* • Doença policística renal
* • Retinopatia proliferativa
* • Hipertensão pulmonar
* • Gravidez
E faz uma recomendação clara:
Não combinar AEE com HIF-PHI.
## **Transfusão, todos preferem evitar, mas precisamos saber que:**
O KDIGO reforça uma estratégia restritiva, especialmente em pacientes candidatos a transplante.
**Transfusão deve ser considerada quando**:
* • Anemia aguda com instabilidade hemodinâmica
* • Sangramento ativo
* • Isquemia miocárdica
* • Cirurgia iminente com perda esperada significativa
**Em anemia crônica**:
sintomas e contexto clínico importam mais que um número fixo de Hb.
Quando Hb entra na decisão, o KDIGO sugere:
* • Hb \<7 g/dL em pacientes estáveis
* • Hb \<7,5 g/dL em cirurgia cardíaca
* • Hb \<8 g/dL em cirurgia ortopédica ou doença cardiovascular significativa
Sempre ponderando risco de aloimunização, especialmente em candidatos a transplante.
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**Mensagem central desta parte:**
AEE e HIF-PHI tratam sintomas e evitam transfusão — não mudam desfechos cardiovasculares; Hb alvo é limite de segurança, não objetivo de normalização.
## **Mensagem final do NefroUpdates:**
O KDIGO 2026 consolida uma mudança de postura madura.
Primeiro, tratar ferro de forma ativa.
Depois, usar AEE com parcimônia, mirando segurança.
Reservar HIF-PHI para cenários bem selecionados.
E lembrar que transfusão continua sendo exceção — não estratégia.
No fim, a boa prática não é subir a hemoglobina.
É reduzir risco enquanto controla sintomas!