> **Artigo de referência**: Transforming the Venous Blood Gas to the Arterial Blood Gas
> Chacon-Palma G, Unruh M, Roumelioti ME Kidney360, 2025 **([link](https://journals.lww.com/kidney360/abstract/9900/transforming_the_venous_blood_gas_to_the_arterial.847.aspx))**
## Gasometria arterial ou venosa?
Paciente de UTI, séptico, em ventilação mecânica não invasiva.
Você precisa avaliar rapidamente pH, bicarbonato e CO₂ para decidir ajuste de ventilação e conduta metabólica.
A enfermagem pergunta:
“**Doutor, pode ser gasometria venosa? A arterial está difícil, paciente agitado.**”
E aí vem o dilema clássico do plantão:
👉 Gasometria venosa serve ou não?
👉 Em quais parâmetros posso confiar sem furar artéria?
👉 Onde está o risco de errar feio?
Esse artigo responde exatamente isso — de forma matemática, fisiológica e extremamente prática.
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## **❓ Gasometria venosa e arterial medem a mesma coisa?**
Não.
Mas podem responder às mesmas perguntas clínicas, dependendo do parâmetro.
A proposta do artigo não é “substituir” cegamente, e sim transformar a gasometria venosa em uma estimativa arterial confiável para alguns componentes.
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## **🧠 O que muda do sangue arterial para o venoso?**
Vamos direto ao ponto:
Parâmetro Diferença venosa → arterial Dá pra usar venosa?
* pH ↓ \~0,03–0,04 ✅ Sim
* HCO₃⁻ ↑ \~1–2 mEq/L ✅ Sim
* PCO₂ ↑ \~4–6 mmHg ⚠️ Com cautela
* PO₂ / SatO₂ Muito diferente ❌ Não
👉 Oxigenação é território exclusivo da arterial.
👉 Ácido–base, muitas vezes não.

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🔢 As fórmulas práticas (o ouro do artigo)
O artigo propõe transformações simples, fáceis de memorizar:
##### 🧪 **pH**
pH arterial ≈ pH venoso + 0,03
📌 Se pH venoso = 7,28
→ pH arterial estimado ≈ 7,31
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##### 🧪 **Bicarbonato**
HCO₃⁻ arterial ≈ HCO₃⁻ venoso – 1 a 2 mEq/L
📌 HCO₃⁻ venoso = 18
→ arterial ≈ 16–17
👉 Para decisão clínica (acidose metabólica), isso é mais do que suficiente.
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##### **🧪 PCO₂ (o ponto mais perigoso)**
PCO₂ arterial ≈ PCO₂ venoso – 4 a 6 mmHg
📌 PvCO₂ = 50
→ PaCO₂ estimada ≈ 44–46
⚠️ Aqui mora o risco:
* Choque
* Baixo débito
* Sepse grave
* Uso de vasopressor
👉 Nesses cenários, a correlação piora.
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## **🚨 Quando NÃO confiar na gasometria venosa?**
O artigo é claro:
❌ Avaliação de oxigenação
❌ Decisão fina de ventilação mecânica
❌ Gradiente A–a
❌ Hipoxemia grave
❌ Estados de perfusão muito alterada
👉 Se a pergunta é “como está a oxigenação?” → arterial obrigatória.
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## ✅ Quando a gasometria venosa resolve MUITA coisa?
Aqui entra o ouro prático do dia a dia:
✔️ Acidose metabólica (sepse, IRA, cetoacidose diabética)
✔️ Monitorar tendência de pH
✔️ Avaliar bicarbonato
✔️ Decidir início de bicarbonato EV
✔️ Avaliar necessidade de diálise por acidose
✔️ Follow-up seriado (menos dor, menos complicação)
👉 Em nefrologia, 90% das decisões metabólicas cabem aqui.
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🧠 Insight importante do artigo (que pouca gente fala)
A variabilidade entre gasometrias arteriais repetidas muitas vezes é maior do que a diferença média entre arterial e venosa.
👉 Ou seja: exigir arterial “por precisão” nem sempre entrega mais precisão real.
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## **Checklist prático do NefroAtual**
Pergunta clínica → Exame certo
1. “Tem acidose?” → ✅ Venosa
2. “Qual o bicarbonato?” → ✅ Venosa
3. “Está retendo CO₂ grosseiramente?” → ⚠️ Venosa com cautela
4. “Está hipóxico?” → ❌ Arterial
5. “Vou ajustar ventilador?” → ❌ Arterial
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## **🧩 Mensagem final do NefroAtual**
Gasometria venosa não é gambiarra — é ferramenta, quando usada com critério.t
👉 Para decisão metabólica, ela funciona.
👉 Para oxigenação, não negocie: arterial.
Usar venosa de forma inteligente reduz punções arteriais, dor, complicações e atrasos, sem perda de segurança clínica.
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## **❓ Pergunta provocativa**
Na sua prática, você ainda pede gasometria arterial automática, ou já escolhe o tipo de gaso pela pergunta clínica que quer responder?