Você acompanha um paciente em hemodiálise convencional, 3x por semana, Kt/V adequado, cálcio, fósforo e PTH razoavelmente controlados. Hemoglobina 10,8 g/dL, ultrafiltração média de 3–3,5 L por sessão.
No consultório, ele te diz algo que tenho certeza que você já ouviu dezenas de vezes:
> “Doutor, eu até chego bem pra diálise… mas depois eu fico acabado. Perco o resto do dia. Não consigo pensar direito, fico irritado, sonolento, sem força pra nada.”
Você revisa os exames, a prescrição está “correta”, a máquina está “ok”.
**E aí vem o dilema**:
👉 Isso é só cansaço esperado da hemodiálise ou existe algo maior acontecendo aqui?
👉 Estamos subestimando esse sintoma porque não sabemos como nomear — nem como abordar?
É exatamente essa lacuna que este artigo tenta preencher.
## **Afinal, o que é a Síndrome Pós-Diálise (Post-Dialysis Syndrome – PDS)?**
A primeira provocação do artigo é conceitual — e importante.
👉 **Não é só “fadiga pós-diálise”**.
O termo Síndrome Pós-Diálise (PDS) foi proposto para descrever um conjunto multidimensional de sintomas que surgem ou se intensificam após a sessão de diálise, incluindo:
1. Fadiga intensa e prolongada
2. Lentificação cognitiva, dificuldade de concentração
3. Alterações de humor (irritabilidade, humor deprimido)
4. Sonolência excessiva
5. Redução importante da capacidade funcional e social
Ou seja: não é apenas sentir-se cansado, é perder o resto do dia — e, para alguns pacientes, perder qualidade de vida de forma significativa.
**Mais de 50% dos pacientes em HD relatam sintomas importantes após a sessão**, e muitos organizam toda a vida em função do “dia de diálise” e do “dia seguinte”.
## **🧠 Mas qual é a fisiopatologia? Por que isso acontece?**
Aqui está um dos pontos mais fortes da revisão: a PDS é multifatorial. Não existe um único mecanismo culpado.
###### 🔥 **Inflamação e estresse oxidativo**
* Hemodiálise é um estado pró-inflamatório crônico
* IL-6 e TNF-α estão associados à fadiga, alterações do sono e cognição
* O estresse oxidativo induzido pela HD contribui para miopatia urêmica e intolerância ao exercício
👉 **Não é só “cansaço”**: é um cérebro e um músculo inflamados.
##### 🥩 **Perda de aminoácidos e estado catabólico**
* A HD é francamente catabólica
* Há perda significativa de aminoácidos, especialmente BCAA
* Menor ingestão proteica se associa a maior fadiga e menor força muscular
👉 O paciente sai da diálise metabolicamente pior do que entrou.
##### 💧 **Ultrafiltração, sódio e hemodinâmica**
* Maior ganho interdialítico e maior UF se associam a: Maior fadiga e tempo para recuperação pós-HD
* Hipotensão intradialítica prolonga dramaticamente o tempo de recuperação
* Dialisato com sódio mais baixo associa-se a maior “ressaca” pós-diálise
👉 A conta não é só volume: é perfusão cerebral e muscular.
##### 🧠 **Fatores psicológicos e psiquiátricos**
* Depressão, distúrbios do sono e ansiedade: prolongam o tempo de recuperação e intensificam a percepção dos sintomas
* Existe uma retroalimentação: PDS piora humor → humor piora PDS
## **Como medir a PDS na prática?**
Outro ponto crítico: não temos um padrão-ouro.
O artigo discute várias abordagens:
⏱️ Tempo de recuperação pós-diálise
Pergunta simples:
“**Quanto tempo leva para você se sentir recuperado após a sessão?**”
✔️ Fácil
❌ Não captura intensidade nem impacto funcional
📋 Escalas e PROMs
1. SF-36 (vitalidade)
2. KDQOL-36
3. SONG-HD Fatigue (curta, prática, validada)
👉 Úteis, mas muitas avaliam apenas fadiga, não o “síndrome” completo.
📱 Avaliação ecológica momentânea (EMA)
* Avaliações repetidas ao longo do dia
* Mostram claramente pior humor e maior sonolência nos dias de HD
👉 Excelente para pesquisa, ainda pouco aplicável na rotina.
## **O que dá pra fazer hoje? (Insights práticos)**
Aqui o artigo é honesto: não existem diretrizes formais. Mas há caminhos.
##### **Ajustes na prescrição dialítica**
1. Reduzir UF agressiva (até 13mL/kg/h, mas deve ser individualizado)
2. Avaliar dialisato mais frio em pacientes selecionados
3. Considerar HD mais frequente ou incremental quando possível
4. HD expandida (HDx) mostrou redução sustentada do tempo de recuperação
##### **Exercício intra ou interdialítico**
• Melhora fadiga, humor, cognição e qualidade de vida
• Mesmo protocolos simples já mostram benefício
👉 Exercício é tratamento, não “adjuvante”.
##### 🧠 **Terapia cognitivo-comportamental (TCC)**
• Reduz fadiga, depressão e impacto funcional
• Desafio: carga cognitiva e adesão
👉 PDS não é só biológica — é biopsicossocial.
## **Mensagem final do NefroAtual**
A Síndrome Pós-Diálise existe, é prevalente, complexa e subdiagnosticada.
Quando o paciente diz que “perde o dia” após a diálise, ele não está reclamando — está descrevendo um fenômeno real, com base fisiopatológica, impacto funcional e consequências clínicas.
👉 Tratar apenas Kt/V, fósforo e hemoglobina não é suficiente.
👉 Precisamos olhar para o depois da máquina!
❓Pergunta provocativa
Você já parou para perguntar sistematicamente quanto tempo seu paciente leva para se recuperar da diálise — e já pensou em ajustar a prescrição com esse objetivo em mente?
Ou ainda estamos aceitando a fadiga pós-diálise como um “efeito colateral inevitável”?
> R**eferência**: Post-Dialysis Syndrome: A Narrative Review Chacon-Palma G, Roumelioti ME, Erickson S, Steel JL, Jhamb M, Unruh ML. Kidney360, 2025 (**[link](https://journals.lww.com/kidney360/abstract/9900/post_dialysis_syndrome__a_narrative_review.797.aspx)**)