Referência: Minutolo R, Ruotolo C, Conte G, Borrelli S. SGLT2 inhibitors in hemodialysis or peritoneal dialysis patients: rationale and state-of-the-art. Clinical Kidney Journal, 2025. **[Link](https://academic.oup.com/ckj/article/19/1/sfaf350/8323150)**
## **Essa tem sido uma dúvida frequente, vamos iniciar com um caso clínico…**
Homem de 62 anos, diabetes tipo 2 de longa data, cardiopatia isquêmica, em hemodiálise há 4 meses. Iniciou diálise com diurese residual de cerca de 400 mL/dia, segue hipertenso apesar de múltiplas drogas e teve duas internações recentes por descompensação de Insificiência cardíaca.
Na consulta, surge a pergunta inevitável:
👉 “Vale a pena manter ou até iniciar um inibidor de SGLT2 (iSGLT2) em um paciente já em diálise?”
👉 Existe benefício real ou estamos extrapolando demais a evidência?
É exatamente essa provocação que este artigo de revisão tenta organizar.
## **🧠 Por que sequer pensar em iSGLT2 em pacientes dialíticos?**
Se o efeito clássico dos iSGLT2 depende do túbulo proximal, faria sentido em quem quase não tem néfrons funcionantes?
O artigo é claro: os benefícios dos iSGLT2 não se resumem ao rim!
👉 Quais mecanismos poderiam justificar benefício mesmo em diálise?
* • Efeitos cardioprotetores diretos, independentes de glicose e TFGe
* • Melhora da função endotelial, com redução de estresse oxidativo
* • Modulação de canais iônicos cardíacos (Na⁺/H⁺ e Na⁺/Ca²⁺), com impacto eletrofisiológico
* • Redução de toxinas urêmicas via eixo intestino–rim–coração
* • Potencial preservação da função renal residual (FRR)
Ou seja: mesmo sem efeito tubular relevante, o coração e o endotélio continuam sendo alvos plausíveis.

## **🩸 E na hemodiálise: o que já sabemos de verdade?**
👉 Os iSGLT2 são removidos pela diálise?
Não. Estudos farmacocinéticos mostram que a dapagliflozina não é dialisável e não acumula de forma clinicamente relevante.
👉 Há sinais de benefício clínico?
Os dados ainda são limitados, mas consistentes em direção favorável:
• Pequenos estudos sugerem:
* o Melhora de parâmetros eletrofisiológicos (QRS mais curto, QT estável)
* o Redução de pressão arterial
* o Melhor controle volêmico
• Em pacientes em hemodiálise incremental, houve:
* o Preservação e até aumento da FRR
* o Menor necessidade de anti-hipertensivos
• Um grande estudo retrospectivo mostrou:
o Redução de \~50% em mortalidade e eventos cardiovasculares em usuários de iSGLT2 após início da diálise
👉 E segurança?
Até agora:
• Sem aumento significativo de cetoacidose
• Sem aumento relevante de infecções genitais ou urinárias
• Boa tolerabilidade geral
Mas atenção: evidência ainda observacional.
💧 E na diálise peritoneal: promessa ou frustração?
Aqui o cenário é mais incerto.
## **👉 Os iSGLT2 melhoram ultrafiltração ou protegem a membrana peritoneal?**
• Estudos observacionais sugerem:
* o Redução de pressão arterial
* o Possível aumento de ultrafiltração em alguns pacientes
• Porém, o único ensaio clínico randomizado cruzado:
* o Não mostrou diferença significativa na ultrafiltração
• Dados experimentais são conflitantes:
* o Alguns modelos sugerem redução de fibrose peritoneal
* o Outros indicam que o efeito depende mais de GLUT do que de SGLT2
👉 Mensagem prática:
Na DP, o racional biológico existe, mas a evidência clínica ainda é fraca e inconsistente…

## **⚠️ Então, devo usar iSGLT2 em pacientes dialíticos hoje?**
👉 O que o artigo recomenda, de forma honesta:
• Não é momento de uso rotineiro
• A indicação deve ser individualizada
• Pode fazer sentido em cenários muito específicos:
* o Transição DRC → diálise
* o Início recente de diálise
* o Presença de FRR
* o Alto risco cardiovascular
👉 E o futuro?
Ensaios em andamento (inclusive com participação brasileira) devem responder:
• Mortalidade
• Hospitalização por insuficiência cardíaca
• Remodelamento cardíaco
• Qualidade de vida
O estudo Renal Lifecycle é o mais aguardado. Mas temos vários outros:

## **🔚 Mensagem final do NefroAtual**
Os inibidores de SGLT2 desafiam nosso raciocínio clássico:
👉 mesmo quando o rim “não funciona”, o benefício pode persistir fora dele.
Hoje, o uso dos iSGLT2 na diálise ainda está na fronteira do conhecimento, não o padrão no cuidado. Mas ignorar completamente essa classe pode nos fazer perder uma oportunidade justamente no grupo de maior risco cardiovascular da nefrologia!
❓ Você já considerou manter ou discutir iSGLT2 em um paciente que acabou de iniciar diálise?
❓ Ou ainda acha que, ao entrar em TRS, essa classe perde totalmente o sentido clínico?