Atrasentana aprovada no Brasil para Nefropatia por IgA: quem pode receber, como usar e quando deve chegar à prática

Atrasentana ainda reduz proteinúria quando o paciente com IgA já usa iSGLT2?

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## Caso clínico
Você acompanha um homem de 38 anos com nefropatia por IgA confirmada por biópsia. TFGe de 52 mL/min/1,73 m², pressão bem controlada e proteinúria persistentemente em torno de 1,5 g/dia, apesar de bloqueio do sistema renina-angiotensina na maior dose tolerada e uso de iSGLT2.
Até pouco tempo, a conversa seria: “O que mais podemos acrescentar?”
Agora existe mais uma opção.
A Anvisa aprovou o **VANRAFIA® (cloridrato de atrasentana)** no Brasil, com publicação no Diário Oficial da União em 31 de agosto de 2026, para redução da proteinúria em adultos com nefropatia primária por IgA em risco de progressão, geralmente com proteinúria ≥1 g/dia, associado ao bloqueio do SRA, com ou sem iSGLT2.
Mas isso já significa que podemos prescrever amanhã na farmácia? E precisamos titular a dose?
## Primeiro: a atrasentana realmente está disponível no Brasil?
Regulatoriamente, sim: está aprovada e registrada pela Anvisa.
Mas existe uma diferença importante entre medicamento aprovado e medicamento já disponível comercialmente.
Neste momento, o VANRAFIA® ainda precisa ter seu preço máximo aprovado pela CMED — Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Só depois dessa etapa estará formalmente apto à comercialização, e a data efetiva de lançamento dependerá da Novartis. A própria Anvisa deixa isso explícito.
Portanto, em até o dia de hoje, 9 de setembro de 2026, a mensagem mais correta é:
- A atrasentana já foi aprovada no Brasil, mas ainda não existe uma data pública definida para sua chegada às farmácias.
Ou seja: ela chegou regulatoriamente. Agora aguardamos CMED + lançamento comercial.
## E pelo SUS?
Essa é outra etapa. A aprovação da Anvisa não significa incorporação automática ao SUS. Para disponibilização no sistema público, será necessária avaliação pela CONITEC e posterior decisão do Ministério da Saúde. Até o momento, não há incorporação ao SUS anunciada.
Na prática, portanto, é provável que o primeiro acesso ocorra no mercado privado, após definição do preço e lançamento comercial.
## Para quem a atrasentana foi aprovada?
A indicação brasileira é relativamente objetiva:
- Adultos com nefropatia primária por IgA em risco de progressão, geralmente com proteinúria ≥1,0 g/dia, apesar de tratamento com bloqueio do SRA, podendo estar ou não em uso concomitante de iSGLT2.
Um detalhe importante: os pacientes do ALIGN tinham nefropatia por IgA comprovada por biópsia, proteinúria ≥1 g/dia e TFGe ≥30 mL/min/1,73 m². Portanto, é nessa população que temos a evidência mais robusta.
Isso faz da atrasentana, pelo menos inicialmente, uma opção muito interessante para aquele paciente que já recebeu o nosso “pacote” de nefroproteção — pressão, bloqueio do SRA, iSGLT2 quando indicado — mas continua com uma proteinúria residual relevante.
## Precisamos titular a atrasentana?
Aqui está um ponto muito prático: **Não.**
Não existe esquema de titulação semelhante ao que fazemos com IECA, BRA ou outros anti-hipertensivos. A dose aprovada é:
- Atrasentana 0,75 mg por via oral, uma vez ao dia.
Começa com 0,75 mg/dia e permanece com 0,75 mg/dia. Não há fase de 0,25 → 0,5 → 0,75 mg. O comprimido deve ser ingerido inteiro, com ou sem alimentos. Não deve ser partido ou triturado. Se uma dose for esquecida, não se recomenda compensar dobrando a próxima dose.
Então, do ponto de vista da prescrição, é uma droga extremamente simples. O desafio será mais selecionar e monitorar o paciente do que titular o medicamento.
## Mas ela funciona?
No ALIGN, a resposta antiproteinúrica apareceu rapidamente. Na semana 36, a redução média geométrica da relação proteína/creatinina urinária foi de:
- −38,1% com atrasentana
- −3,1% com placebo
Diferença entre os grupos: −36,1 pontos percentuais, com P<0,001. E um dado clinicamente interessante: grande parte do efeito já aparecia nas primeiras semanas. Portanto, se iniciarmos atrasentana e após alguns meses a proteinúria simplesmente não se mover, provavelmente devemos rever aderência, diagnóstico e todo o contexto terapêutico.
## E proteção da função renal? Agora temos dados mais longos
Essa história mudou desde a publicação inicial do NEJM. Os resultados finais de 2,5 anos do ALIGN foram publicados em 2026 no Lancet. Na semana 136, a redução da TFGe desde o basal foi:
- −7,5 mL/min/1,73 m² com atrasentana
- −9,9 mL/min/1,73 m² com placebo
A diferença foi de 2,4 mL/min/1,73 m², embora o endpoint de mudança da TFGe na semana 136 tenha ficado muito próximo, mas abaixo do limiar convencional de significância estatística: P=0,057. Por outro lado, a diferença na inclinação total da TFGe foi de aproximadamente 1,4 mL/min/1,73 m²/ano a favor da atrasentana.
Ou seja: a aprovação brasileira continua formalmente centrada na redução da proteinúria, mas hoje temos evidências de longo prazo que fortalecem a hipótese de nefroproteção.
## E o edema? Esse provavelmente será o ponto que mais vamos observar
Antagonistas do receptor de endotelina podem provocar retenção de sódio e água. No primeiro relatório do ALIGN:
- Retenção de líquidos: 11,2% com atrasentana versus 8,2% com placebo
- Edema periférico: 8,9% versus 6,5%
- Não houve casos aparentes de insuficiência cardíaca
- Não houve edema grave levando à suspensão
Nos dados finais, eventos relacionados à retenção de líquido continuaram relativamente próximos entre os grupos: aproximadamente 14% versus 12%. Portanto, antes e depois de iniciar, eu prestaria atenção a: peso, edema, pressão arterial, hemoglobina e sinais de congestão, principalmente em pacientes com maior risco cardiovascular. Pacientes com insuficiência cardíaca merecem cuidado especial — inclusive porque pacientes com história de IC foram excluídos do ALIGN original.
## Existe uma contraindicação que não podemos esquecer
Sim: **gestação**.
Os antagonistas da endotelina têm potencial teratogênico importante. Mulheres com potencial de engravidar devem ter teste de gravidez negativo antes do início, utilizar contracepção eficaz durante o tratamento e mantê-la por duas semanas após a última dose. O medicamento também não é recomendado durante a amamentação.
## Como eu imagino o paciente para atrasentana na prática?
Algo próximo disto: IgA primária + adulto + risco de progressão + proteinúria persistente geralmente ≥1 g/dia + bloqueio do SRA otimizado ± iSGLT2.
Não é uma droga que vem para substituir a nefroproteção convencional. Ela vem para ser adicionada. E essa talvez seja uma mudança conceitual importante na IgA: sair da procura por “a droga” e pensar cada vez mais em tratamento combinado de mecanismos diferentes.
### Mensagem final do NefroAtual
A atrasentana já está aprovada no Brasil. Ainda aguardamos a etapa de preço pela CMED e o lançamento comercial para saber exatamente quando conseguiremos colocá-la na receita e o paciente encontrá-la no mercado.
Quando chegar, a prescrição será simples: 0,75 mg uma vez ao dia, sem necessidade de titulação. A parte menos simples será escolher bem o paciente: proteinúria residual relevante apesar de nefroproteção adequada, monitorando especialmente retenção volêmica, pressão e hemoglobina.
Você já tinha percebido que a atrasentana não precisa ser titulada? E, quando ela estiver comercialmente disponível no Brasil, qual será o primeiro perfil de paciente com IgA em quem você pensará em utilizá-la?
## Referência principal:
Heerspink HJL et al. Atrasentan in Patients with IgA Nephropathy. New England Journal of Medicine. 2025;392:544-554.
**Atualização:** Heerspink HJL et al. Atrasentan in patients with IgA nephropathy (ALIGN): final 2·5-year results from a randomised, double-blind, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet. 2026;407:2387-2401.