## 🩺 Introdução
Imagine uma paciente que iniciou hemodiálise há oito meses. Vem perdendo peso, febrícula no fim da tarde, inapetência... tudo creditado à dose de diálise e à inflamação urêmica.
A investigação se arrasta por meses, até uma adenomegalia cervical fechar o diagnóstico de tuberculose ganglionar. Essa revisão do Clinical Kidney Journal coloca a pergunta que ficou para trás: **dava para ter rastreado antes**?
## 🔬 Metodologia
Revisão narrativa sobre rastreio de infecção latente por tuberculose (ILTB) na DRC, somada a um survey das unidades renais da Inglaterra (36 de 56 responderam). Três eixos: risco de reativação, desempenho dos testes e balanço entre benefício e dano do tratamento.
## 📊 Resultados
- Incidência global de TB na população em diálise: 5.611 por 100.000 pessoas-ano.
- Cerca de 20 vezes a incidência da região do Sudeste Asiático da OMS (234/100.000).
- Na DRC pré-diálise, 912/100.000.
- O mecanismo proposto é direto: cerca de 80% da TB ativa na DRC é reativação de infecção latente, não infecção nova.
- A disfunção imune progride em degraus com a perda de função renal, e o salto mais abrupto acontece justamente na entrada em diálise.
- Isso tem implicação direta na apresentação: 60% a 80% dos casos são extrapulmonares, com fadiga, febre, anorexia e perda de peso, sintomas que se confundem com a própria DRC.
- Numa coorte chinesa, o HR de óbito foi 4,7 na DRC 4-5 e 6,1 em hemodiálise.
- O problema está nos testes. Na DRC, a PT/PPD tem sensibilidade de 20% a 30% e especificidade entre 9% e 63%.
- O IGRA vai um pouco melhor: QuantiFERON com sensibilidade de 53% e especificidade de 69%; T-SPOT, 50% e 67%.
- O que isso significa na prática: teste negativo em diálise não exclui ILTB... e nenhuma diretriz (OMS, ECDC, Colúmbia Britânica) recomenda repetir o IGRA, já que a disfunção imune é persistente, não flutuante.
- O dado que sustenta o rastreio vem do Canadá: o programa da Colúmbia Britânica reduziu a incidência de TB ativa em diálise em 70%, com mediana de 300 dias entre o início da TRS e o diagnóstico.
- O tratamento da ILTB nesse grupo teve 21% de eventos adversos grau 3-4, 0,5% de internação e nenhum óbito, contra 33% de eventos grau 3-4 no tratamento da TB ativa.
## ⚠️ Algumas limitações importantes
- O NNT em diálise varia de 600 a 23.000 para evitar um óbito. Intervalo largo demais para sustentar decisão individual, logo o argumento mais sólido segue sendo de saúde pública.
- A evidência de eficácia vem de coortes retrospectivas, o que impede afirmar causalidade na redução de 70%.
- Um teste com sensibilidade próxima de 50% deixa metade dos infectados de fora, portanto rastreio negativo não encerra a vigilância clínica.
- Nenhum desfecho relatado pelo paciente foi medido: não se sabe o custo em ansiedade, estigma e carga de comprimidos.
- Não há análise de custo-efetividade em cenário endêmico. Os modelos vêm de Reino Unido e Canadá, ambos de baixa incidência.
## 🧠 Opinião do NefroAtual
A OMS 2018 já recomenda rastrear ILTB em todos os pacientes em diálise, e o Manual do Ministério da Saúde lista "insuficiência renal em diálise" entre as indicações. No Brasil a discussão não é se rastreia... é como.
Aqui mora o detalhe que passa batido: o corte brasileiro para diálise é PT ≥ 10 mm. Num teste com sensibilidade de 20% a 30% nessa população, esse corte descarta quase todo mundo. Para candidato a transplante, o corte é 5 mm. Mesmo paciente, dois critérios, dependendo do fluxo em que entrou. Vale considerar avaliar quem inicia diálise já com a lógica do pré-transplante, e priorizar o IGRA onde houver.
Com 84.368 casos novos e coeficiente de 39,5/100 mil em 2025, a incidência de base brasileira é bem maior que a britânica, e o multiplicador da diálise incide sobre um denominador maior. Se o rastreio se paga em Birmingham, aqui tende a se pagar com folga.
Rastrear na entrada da diálise custa menos que rastrear a clínica inteira depois.
Agora coloca nos comentários: você rastreia ILTB nos seus pacientes que iniciam diálise?
## Referência:
[Sturman J, et al. Screening for latent tuberculosis infection in patients with chronic kidney disease: a review of evidence and current practice in the UK. Clin Kidney J. 2025;18(7):sfaf197.](https://academic.oup.com/ckj/article/18/7/sfaf197/8046182)